segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

ÁGUA – UM BEM METAINDIVIDUAL DE VALOR INIGUALÁVEL

Na hidrosfera 97,5% da água se encontra nos mares e oceanos, portanto, a porcentagem de água doce é de apenas 2,5%. Considerando a porção planetária de água doce, apenas 0,3% corresponde aos rios e lagos, já que a maior parte  está nas geleiras e nos reservatórios subterrâneos.
No Brasil o volume de água utilizada para produzir alimento, atender as indústrias e as necessidades domésticas equivale a cerca de 1,4 milhões de litros “per capita” ao ano e mais de 80% desse consumo anual é decorrente da atividade agropecuária.
 O crescimento da população brasileira nos próximos 40 anos é estimado em 30% e o desafio para o futuro será conseguir aumentar a produção de alimentos sem aumentar desmatamento e sem promover gastos adicionais de água para o setor agropecuário, até porque, o desmatamento pode acarretar destruição de berçários de água, que, por sua vez, sustentam hidricamente a própria atividade agropecuária.
Por ser um grande celeiro de grãos, o centro-oeste não pode mais expandir desordenadamente sua fronteira agropecuária, pois o pouco do Cerrado que se encontra preservado e íntegro é detentor das nascentes de água que são imprescindíveis à produção de alimentos em seu solo e para garantir o aumento do volume das águas de muitos rios das principais bacias hidrográficas brasileiras. Caso as nascentes sejam preservadas juntamente com as matas de galerias, as condições para uma boa produtividade permanecerão. Caso contrário, perde-se a eco viabilidade, e com o tempo, a produtividade cairá inexoravelmente.
Estudos climatológicos atestam mudanças radicais no ciclo hidrológico planetário. Alguns rios – antes perenes – agora secam antes de atingir o mar. Desde 1985 o rio Amarelo, importante rio da civilização chinesa, está secando intermitentemente e o portentoso rio Nilo está minguando suas águas ao se aproximar do mar mediterrâneo.
Devido à progressiva degradação de biomas e ecossistemas, em decorrência de novas ocupações humanas desordenadas e sem planejamento, o conjunto de atividades antrópicas impacta sobre o meio ambiente alterando temperatura, comprometendo o abastecimento de águas subterrâneas no processo de percolação e alterando o ritmo evapotranspiração. Como consequência certas regiões passam a ter escassez de água, enquanto outras recebem carga excessiva.
Com a descoberta do maior aquífero do mundo – o “Alter do Chão”, inteiramente brasileiro e situado nos subterrâneos da Floresta Amazônica – o Brasil, que já era um  País  agraciado em água doce, passa a ser a nação com maior reserva  de água potável do planeta, dentro de um cenário mundial que, através do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU de 2014 ( IPCC ),prevê uma redução significativa de recursos de água de superfície e subterrânea na maioria das regiões subtropicais da Terra.

Original em https://gaiaconsciente.wordpress.com/2014/04/18/agua-um-bem-metaindividual-de-valor-inigualavel/

Desenvolvimento Sustentável ou Exploração Irracional da Natureza? - Por MAURÍCIO TOVAR

Desde 2000, a análise conhecida como “Dia da Sobrecarga da Terra”, é calculada pela Global Foot Print Network. No primeiro ano que foi calculada, o dia primeiro de outubro foi a data da sobrecarga. Isso equivale a dizer que em 9 meses foram gastos  recursos naturais da Terra que deveriam sustentar a humanidade pelo periodo  de um ano. Daquele ano para cá a data vem retrocedendo, e nesse ano de 2014, no dia 19 de agosto, a pegada ecológica da humanidade já havia consumido os recursos naturais para os 12 meses do ano. Para que não houvesse débito ambiental, teríamos que ter um planeta e meio gerando os recursos naturais que estão sendo consumidos pela humanidade.


O atual modelo de civilização está em xeque, pois o débito ambiental crescente atesta que o caminho da sustentabilidade  é apenas uma falácia que virou modismo.  Mais de 80% da população humana está alocada em países que consomem mais recursos naturais do que seus ecossistemas podem ofertar.

Qualquer recurso financeiro, direta ou indiretamente, foi produzido de recursos naturais, portanto, se estes estão sob ameaça de um colapso ecológico, o setor econômico entra em crise.

Pegada Ecológica

Trata-se de uma metodologia que contabiliza a pressão que o consumismo das populações humanas exerce sobre os recursos naturais existentes no planeta. Ela possibilita a comparação de diferentes padrões de consumo para verificar se esses padrões estão dentro da capacidade ecológica da Terra. A unidade da pegada ecológica é o hectare Global (gHa). Um gHa significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produzidas em um ano.

Um outro conceito fundamental é o conceito de biocapacidade, que representa a capacidade de um ecossistema produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano.

Atualmente a média mundial da pegada ecológica é de 2,7 hectares globais por pessoa, enquanto a biocapacidade disponível para cada ser humano do planeta é de 1,8 hectareglobal.Como se vê, existe um déficit ecológico que corresponde a 0,9 gha/cap. O atual padrão de consumo da humanidade exige a oferta de recursos naturais de um planeta e meio, portanto, na atual conjuntura não existe Desenvolvimento Sustentável, o que existe deve ser chamado de  Exploração Irracional da Natureza.

Entre 1970 e o ano de 2000 houve uma gigante perda de biodiversidade na biosfera, cerca de 35%. Essa perda se compara com as cinco grandes extinções que ocorreram no passado remoto da Terra, entretanto, não causadas pelo ser humano.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Robert Bea: "As maiores tragédias vêm da ganância" - Por FELIPE PONTES (ÉPOCA)


O americano Robert Bea, de 76 anos, é um dos maiores especialistas em desastres no mundo. Ele investiga a causa de catástrofes desde 1959, quando analisou o naufrágio de uma plataforma petrolífera próxima à costa de Nova York. Em mais de 50 anos, Bea, professor emérito da Universidade Berkeley, estudou casos como o desastre da nave espacial Columbia, em 2003, e a explosão da plataforma da British Petroleum (BP) no Golfo do México, em 2010.

 “Todo desastre é uma mistura de perigos naturais, a que sempre estamos sujeitos, arrogância e presunção humana.” Essa regra é aplicável, segundo ele, mesmo a tragédias causadas por eventos naturais, como o tufão nas Filipinas. Para Bea, os filipinos e seus governos se tornaram complacentes com os tufões.

ÉPOCA – Já existe tecnologia suficiente para prevenir qualquer desastre, excluindo o natural?
Robert Bea –
Não acredito que existam desastres naturais. Há muitos perigos naturais, como tempestades intensas, enchentes, terremotos e erupções vulcânicas, mas eles só se tornam desastres porque as pessoas não se preparam devidamente. Elas simplesmente não aprendem. Por isso, continuam a acontecer. Todo desastre, que acontece mais cedo ou mais tarde, é uma mistura de perigos naturais, arrogância e presunção humanas. Há outro fator importante nesses desastres: a complexidade dos sistemas criados. Eles se tornaram maiores, mais interconectados, complexos e interdependentes. Falhamos em compreendê-los. Quando uma parte do sistema falha, as outras são adversamente afetadas e também dão problemas. Temos conhecimento e experiência para prevenir esse tipo de desastre. Geralmente, não usamos.

ÉPOCA – Sua tese vale também para o caso do tufão nas Filipinas? É um país pobre e relativamente despreparado. A tragédia poderia ter sido evitada?
Bea –
As Filipinas são ocupadas há milhares de anos. Seus primeiros habitantes, quando construíam nas áreas próximas ao mar, buscavam construir em regiões altas e fortes para evitar os efeitos de tufões. Construíam de maneira que as edificações, caso destruídas, pudessem ser reconstruídas facilmente. Também costumavam evacuar para locais mais elevados muito antes de a tempestade começar. Tinham reservas alternativas de água e outras coisas de que precisavam para sobreviver e recomeçar. Aprenderam a lidar com tufões. Recentemente, os filipinos passaram a construir cidades grandes demais e fragéis em áreas costeiras de baixa altitude. Os habitantes das Filipinas e seus governos se tornaram mais complacentes.

ÉPOCA – Esse conhecimento de como lidar com tufões foi perdido?
Bea –
Exatamente. À medida que as grandes cidades filipinas foram construídas após o final da Segunda Guerra Mundial, a história e esse conhecimento foram esquecidos. É por isso que eles construíram em locais baixos, de maneira despreparada. O conhecimento de evacuação prévia também foi abandonado. Atualmente, eles só saem das regiões atingidas pelos tufões de maneira tardia e incompleta. A quantidade imensa de mortos e feridos é um testamento dos sistemas de emergência que caracterizam as cidades modernas das Filipinas.

"Quando falhamos em
nos preparar, nos
preparamos para falhar"
ÉPOCA – Os Estados Unidos sofrem todos os anos com tornados destrutivos. Em março, a cidade de Moore, no Estado de Oklahoma, foi devastada por um deles e não tinha sequer um abrigo comunitário. Por que mesmo nações ricas têm dificuldades em se preparar contra desastres naturais?
Bea –
Quando falhamos em nos preparar, nos preparamos para falhar. É possível projetar, construir, operar e manter instalações como abrigos subterrâneos como proteção contra tornados. Essa estratégia custa caro. Mas esse dinheiro pode ser poupado em gastos futuros associados a lesões e mortes, problemas em serviços e perdas em produtividade. A história mostra, no entanto, que costumamos seguir um roteiro a cada desastre. Superamos o luto. Reconstruímos o que foi destroçado. Ficamos esperançosos de que não aconteça novamente. E voltamos o mais rápido possível para nossa vida normal, sem que nada de substancial tenha sido feito em termos de prevenção.

ÉPOCA – As falhas humanas sempre são as principais responsáveis por desastres de grande escala?
Bea –
Qualquer falha de engenharia é humana e organizacional. Entre os exemplos estão os acidentes dos ônibus espaciais Challenger e Columbia, da Nasa (a agência espacial americana). Essas falhas foram encorajadas e se desenvolveram por causa da gestão inadequada motivada por pressões econômicas, que induziram os engenheiros a reduzir as margens de segurança. Essa falta de proteção adequada é causada principalmente pela busca excessiva por eficiência, reduzindo gastos para aumentar os lucros. Todo desastre é uma mistura de perigos naturais, a que sempre estamos sujeitos, arrogância e cobiça.

ÉPOCA – Como sanar problemas derivados da cobiça? É natural que as empresas e organizações queiram poupar dinheiro.
Bea –
Esse é o poder da imprensa responsável, que deve trazer isso à atenção do público, do governo, da indústria e dos representantes do meio ambiente. É preciso mostrar o que acontece e não acontece, para que ações corretivas possam ser executadas e se possa lidar com desastres que ainda estão em desenvolvimento.

ÉPOCA – É possível enxergar uma mudança de comportamento no horizonte?
Bea –
Sim, mas ela acontece lentamente. Nosso progresso em desenvolver sistemas e estruturas mais complexos e mais perigosos evolui mais rapidamente que nossa habilidade em aprender a geri-los de maneira apropriada. Caso essas diferenças persistam, presenciaremos desastres bem dolorosos num futuro próximo.

ÉPOCA – O senhor foi uma das testemunhas do julgamento da British Petroleum no vazamento de petróleo no Golfo do México. O que achou do comportamento da empresa?

Bea – Não posso determinar se, com base na lei, a BP foi criminosa ou grosseiramente negligente. Disse o que eles deixaram de fazer e que aquilo foi trágico e escandaloso. A gestão da BP tinha conhecimento e experiência necessários para prevenir e mitigar o desastre, mas não o fez.

ÉPOCA – Que desastres mais o chocaram em sua carreira?
Bea –
A explosão da plataforma Occidental Petroleum Piper Alpha em 1988, no Mar do Norte, seguida rapidamente pelo derramamento do petroleiro Exxon Valdez em 1989, no Alasca. Logo depois, colocaria o desastre do ônibus espacial Columbia e o derramamento da BP.


ÉPOCA – Por que o acidente da plataforma Occidental Petroleum Piper Alpha o marcou mais?
Bea –
Foi a primeira investigação em que reconheci que a empresa responsável, a Occidental Petroleum, foi a principal culpada pela tragédia. Ela fora avisada por diversas vezes de que havia problemas de segurança no sistema da plataforma. Mesmo assim, não tomou nenhuma medida apropriada para remediar os problemas. Pelo contrário, aumentou a produção da plataforma. Isso continuou até a estrutura explodir, matando 167 pessoas. Estava lá quando o prédio do alojamento foi rebocado do fundo do mar, com 70 corpos ali dentro. Foi chocante. Infelizmente, as maiores tragédias vêm da ganância.

ÉPOCA – O senhor investigou o desastre da plataforma P36 da Petrobras, que afundou em 2001. O que causou o acidente?
Bea – A gestão da plataforma P36 repetiu muitos dos mesmos erros da Occidental Petroleum no desastre da Piper Alpha. A Petrobras recebeu muitos avisos sobre as condições deteriorantes da P36. Falhou em tomar as ações preventivas. O sistema continuou a deteriorar até começar um incêndio numa de suas colunas. Foi outro desastre que poderia ter sido evitado. 

ÉPOCA – Muitos governos e companhias o procuram. Já houve caso em que seu trabalho foi desmerecido por criticá-los?
Bea –
Nunca fui maltratado por agências governamentais. O tratamento ruim parte de representantes de companhias e grupos industriais que se dizem profissionais. Minhas críticas sobre os erros da BP foram consideradas severas. Em outras palavras, querem continuar a operar basicamente como operavam antes do desastre.

ÉPOCA – Por que fazem isso?
Bea –
Muitas empresas não aceitam mudanças em sua gestão. Os problemas centrais desses grandes desastres são firmemente enraizados em falhas de gestão. 

Original disponível em http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2013/11/brobert-beab-maiores-tragedias-vem-da-ganancia.html

sábado, 2 de janeiro de 2016

Om Namah Shivaya Mantra

De maneira geral, o Om Namah Shivaya Mantra é cantado ou pensado da seguinte  maneira:


Om Namah Shivaya Om Namah Shivaya Hare Hare Bole Namah Shivaya
Rameshwara Shiva Rameshwara Hare Hare Bole Namah Shivaya
Ganga Dhara Shiva Ganga Dhara Hare Hare Bole Namah Shivaya
Jatadhara Shiva Jatadhara Hare Hare Bole Namah Shivaya
Someshwara Shiva Someshwara Hare Hare Bole Namah Shivaya
Vishweshvara Shiva Vishweshvara Hare Hare Bole Namah Shivaya
Koteshwara Shiva Koteshwara Hare Hare Bole Namah Shivaya
Mahakaleshvara Hare Hare Bole Namah Shivaya  नमः शिवाय


A PRONÚNCIA - OM NAMÁ CHIVÁIA
O SIGNIFICADO - Este é o Grande Mantra da Salvação e Significa :
                            “Eu invoco/ confio/ honro e me curvo à luz do Senhor Shiva



"OM NAMAH SHIVAYA" É um mantra é composto fisicamente de sílabas soadas de forma a influenciar o sistema humano, vibra afetando a matéria física, emocional e mental. Em determinado sentido cada palavra é um mantra.
A palavra é muito poderosa, todo momento estamos presenciando isto em nosso dia a dia ao utilizamos palavras para obtermos o que desejamos (e o que não desejamos). 
Os poderosos mantras que chegaram aos tempos atuais, pelo caminho da tradição védica, ou foram divinamente revelados, ou foram ouvidos pelos rishis e yogis de tempos imemoriais, quando se encontravam em estados trancendentais de consciência. 
Conforme os vedas o mantra Om Namah Shivaya é o corpo do Senhor Nataraja, o Dançarino Cósmico. É o lar de Shiva. 
"Namah" significa prostrações, "Shivaya Namah" significa: eu me prostro ante o Senhor Shiva (a alma é o servo de Shiva). "Shiva" representa a alma universal, "Aya" denota a identidade entre a alma individual e a alma universal. 
As cinco letras de "Namah Shivaya" significam as cinco ações do Senhor: criação, preservação, destruição, o ato de ocultar e a benção; significam também os cinco elementos e toda a criação através da combinação deles. 
"Na" denota o poder oculto do Senhor que faz a alma se mover pelo mundo, "Mah" é a amarra que prende a alma na roda das vidas e mortes. "Shi" é o símbolo do Senhor Shiva, "Va" é a Sua graça e "Ya" é a alma individual. 
Se a alma se enreda em "Na" e "Mah" ela ronda interminavelmente pelo mundano, se ela se associa com "Va" ela vai em direção a Shiva. "Namah Shivaya" forma o corpo do Senhor Shiva e o mantra propicia que "eu me refugie no corpo do Senhor Shiva"’. 

Om Namah Shivaya é parte central e a mais importante de um antiqüíssimo mantra: o mantra original que precedeu a criação. Babaji disse que quando Jagadamba, a energia primeva apareceu, foi este o som que primeiro surgiu em seus lábios."

OM NAMAH SHIVAYA, o maha mantra de Shiva, foi o principal mantra utilizado por Haidakhand Bhole Baba, faz parte do centro nevrálgico de seu ensinamento. Babaji enaltecia seu poder de purificação, iluminação, imortalidade e redenção, ensinava sobre seu indescritível poder para destruir obstáculos, criar alegria e felicidade e formar uma ponte de ligação com Shiva. 
Dizia que seu poder era maior que o de uma bomba atômica. Recomendava sua repetição constante durante a meditação, o trabalho, o descanso e até mesmo durante sono e os sonhos. 

Babaji ensinava que se as pessoas repetissem constantemente o nome do Deus da crença de cada um, a vida dos homens e todos os seres do planeta poderia ser reconduzida para um padrão mais saudável e eventualmente poderíamos esperar um futuro menos negro do que este que a humanidade atual está gerando. São milhares os depoimentos de pessoas relatando os efeitos extraordinários provocados pelo uso constante deste mantra. 

"O mantra, a deidade do mantra, o guru e você mesmo são todos um só. Repita o mantra com esta certeza". Shree Swami 108 Fakira Nand
http://www.grandefraternidadebranca.com.br/16_namah_shivaya_108_e.mp3

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Um ensinamento escrito, sobre o zazen, meditação zen, por Monja Coen.

Zazen literalmente significa Sentar Zen. Zen é uma palavra que vem do Sânscrito Dhyana ou Jhana e significa um estado meditativo profundo. Geralmente não chamamos o Zazen de meditação, pois o verbo meditar é transitivo direto, ou seja, requer um objeto. Meditar sobre a vida, meditar algo. Enquanto que o Zen é intransitivo. Não há objeto de meditação. Até o sujeito desaparece. E quando isso acontece o Caminho se manifesta em sua plenitude.

Procure um local tranquilo, nem muito claro nem muito escuro, não muito quente nem muito frio.
Há várias maneiras de sentar-se: posição das bermudas, meia lótus, lótus completa, banquinho, cadeira. Em qualquer uma delas é importante que a coluna vertebral seja mantida ereta. O queixo um pouco para baixo, de forma que a região cervical fica reta. Verifique se seu corpo está centrado, movendo da esquerda para a direita, como um pêndulo – de movimentos largos a movimentos menores e pare exatamente em seu próprio centro de equilíbrio.
Perceba se as orelhas ficam em linha com os ombros e o nariz em linha com o umbigo. Esvazie os pulmões, soltando todo o ar profundamente pela boca, umas três vezes. Relaxe qualquer parte do corpo onde sinta tensão. Em seguida coloque as mãos no mudra cósmico (mão direita embaixo, com a palma voltada para cima e a costa dos dedos da mão esquerda repousando na palma dos dedos da direita, mantendo a mão esquerda com a palma para cima. Encoste levemente os dois polegares, como se houvesse uma finíssima folha de seda entre eles). Perceba que suas mãos estarão formando uma elipse, assim como os planetas em torno do Sol – o Cosmos em suas mãos.


Em seguida coloque a ponta da língua no palato superior, tocando de leve atrás dos dentes frontais. Isto cria um canal de comunicação de energia ao mesmo tempo que evita muita salivação.


Mantenha os olhos entreabertos, pousados cerca de um metro e meio de distância num ângulo de 45 graus.
Assim, sem pensar e sem não-pensar, sente-se calmamente por alguns minutos. Alguns ficam em zazen por 40 minutos, outros por 30 ou mesmo 20 minutos. De qualquer maneira adapte à sua realidade. Para quem nunca praticou nenhuma forma de meditação mesmo cinco minutos pode ser um bom tempo. Não tenha pressa em querer sentar por longos períodos.
Tendo assim assentado corpo e mente perceba sua respiração. Sinta se está sendo abdominal (ao inalar o abdômen se expande ao exalar se contrai) ou toráxica (a caixa toráxica se expande e se contrai). Perceba seus batimentos cardíacos. Ouça todos os sons, próximos e distantes. Sinta as fragrâncias da sala, do local (pode ser ao ar livre). Perceba o ar, sua textura, sua temperatura. A luz e a sombra que se formam onde seus olhos estão pousados são também percebidas. Verifique sua postura, a posição das mãos, da coluna, da língua e oxigene áreas de tensão. Perceba seus pensamentos. Como se formam, como desparecem. Veja se pensa em formas, palavras, música, cores, imagens. Qualquer emoção que surja deve ser notada. Assim como seu término. O mesmo para memórias. Entretanto não fique pensando apenas, nem apenas percebendo, pois isto ainda está no plano da dualidade. Torne-se um com o uno sendo a respiração, a postura correta e a vida do universo em constante fluir.
Um momento de Zazen é um momento de Buda. 
Entre tarefas, em momentos de stress no trabalho, nos estudos, entre amigos e desafetos, em casa, no trânsito, lembre-se apenas de endireitar a coluna e respirar conscientemente. Perceba suas emoções e batimentos cardíacos. Relaxe, sorria. Tudo é passageiro. Aprenda a estar presente no instante e a agir da maneira correta a transformar o que náo for de seu agrado. Lembre-se: apenas reagir não transforma. 
Assim, use o Zazen para o seu bem e de todos os seres. Pois afinal, se se entregar ao Zazen de corpo e mente verificará que é o Zazen que faz zazen… Zazen zazen zazen.


Fonte: http://budismopetropolis.wordpress.com/2014/09/22/meditacao-zen-zazen/

terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre fé e devoção no budismo – Jetsunma Tenzin Palmo










"No budismo, a fé é uma segurança interna em algo que é digno de nossa confiança. Por exemplo, podemos ter fé no Darma, mas isso não significa que temos que engolir cegamente tudo o que lemos. Não precisamos acreditar em algo só porque está escrito nos livros sagrados ou porque foi dito por um lama. No Buddha-dharma, esse tipo de fé ingênua, inquestionável e crédula não é necessariamente considerada uma virtude. A qualidade de questionarmos de forma inteligente, de realmente investigarmos e de vermos por nós mesmos se algo é digno de nossa fé ou não é muito incentivada." – Jetsunma Tenzin Palmo


Pelo fato de eu ser, por natureza, muito cética, não tenho certeza de ser a pessoa certa para falar sobre fé e devoção. Mas vamos fazer o nosso melhor para investigar essas questões. De fato, o próprio Senhor Buda colocou a fé na linha de frente dos cinco poderes necessários para se atingir o estado de buda. Ele descreveu a fé como um salto para a frente. Sob essa ótica, usou a analogia de um rio sobre o qual não há nenhuma ponte. Pessoas que estavam em um lado desse rio queriam atravessar para o outro lado, mas se continham. “Não, o rio é muito largo”, diziam. “É muito profundo, corre muito rápido – não vamos conseguir.” Hesitavam. Mas um homem que tinha mais coragem, disse: “Vamos conseguir. Eu acredito que é possível atravessar.” E ele então cruzou o rio com esse sentimento de determinação e fé. E porque atravessou, outros foram incentivados a atravessar também. Em outras palavras, a fé é uma expressão de confiança. Não é uma espécie de cegueira ou a crença em algo por ingenuidade.

No budismo, a fé é uma segurança interna em algo que é digno de nossa confiança. Por exemplo, podemos ter fé no Darma, mas isso não significa que temos que engolir cegamente tudo o que lemos. Não precisamos acreditar em algo só porque está escrito nos livros sagrados ou porque foi dito por um lama. No Buddha-dharma, esse tipo de fé ingênua, inquestionável e crédula não é necessariamente considerada uma virtude. A qualidade de questionarmos de forma inteligente, de realmente investigarmos e de vermos por nós mesmos se algo é digno de nossa fé ou não é muito incentivada.

E não somos encorajados a questionar apenas o Darma, mas também toda a atitude em relação aos mestres. Algumas vezes, eu procurava meu lama, Khamtrul Rinpoche, e mostrava a ele uma passagem que eu simplesmente não conseguia engolir. Ele ria e me dizia: “Ah, vamos lá! Você não tem que acreditar em tudo o que está escrito nos livros ou dito nos sutras – pode não ser verdade.” Certa vez disse que muito do que estava escrito nos livros e nos sutras era resultado de acréscimos culturais particulares e superstições da época, e o Buda não podia se ocupar de negar porque não eram pontos muito importantes. Por exemplo, alguns ocidentais se debatem desesperamente com toda a descrição do Monte Sumero e dos quatro continentes, tentando sustentar a fé completa e inquestionável nos ensinamentos de seus lamas.

Certa vez dei uma palestra sobre o sol, a terra e a lua para nossos monges mais jovens. Segurei uma maça e uma laranja a fim de explicar que a Lua gira em torno da Terra, que ambas giram em torno do sol, e assim por diante. Um velho monge que estava no fundo da sala disse: “Onde estão o Monte Sumero e os quatro continentes? A Terra é plana e fica nas costas de uma tartaruga.” Eu disse, “Bem, até onde podemos ver, o Monte Sumero e os quatro continentes não existem. E a Terra não é plana, é redonda.” O velho monge apenas balançou a cabeça e disse algo como: “Ah, sei.” Se estivéssemos na Europa medieval, eu teria sido, no mínimo, queimada na fogueira. Mas em um mundo de aparências ilusórias, plana ou redonda – quem se importa? Não temos que engolir tudo o que é dito. Ser crédulo, na verdade, não é uma virtude. Temos que aplicar nossa inteligência a tudo.

No Buddha-dharma há três aspectos. Primeiro, ouvimos ou estudamos o Darma. Ouvimos, lemos e depois pensamos a respeito. Realmente refletimos sobre o que lemos ou ouvimos; estudamos com cuidado. E, se houver alguma dúvida, fazemos perguntas. Quando as nossas dúvidas estiverem resolvidas, vamos embora e contemplamos o assunto até que nos tornemos aquele ensinamento. Não devemos dar uma dentada, arrancar e devorar um pedaço grande de Darma para depois ficarmos com a sensação de ter uma bola pesada em nosso estômago. Realmente precisamos mastigá-lo bem, até que possamos engoli-lo e sermos nutridos por ele.

Uma das coisas bonitas sobre o Buddha-dharma é a sua verdade essencial. Assim que o ouvimos, pensamos: “Ah, sim, é verdade!” Nós reconhecemos a verdade de questões como a impermanência, a natureza insatisfatória da existência de forma geral e o fato de que nosso apego ao ego dá origem aos nossos problemas. O fato é que essas qualidades negativas da nossa mente, como a delusão, a ganância e o apego, a agressividade e a raiva, o orgulho, o ciúme e a inveja afligem a mente e criam uma grande dor. Isso não é uma crença. Não é uma questão de fé. É apenas uma questão de olhar para a situação e pensar: “Sim, é isso mesmo!” Quando nossa mente está infeliz, se de fato olhamos para ela, vemos que o problema são sempre essas emoções muito venenosas. Nossa depressão é causada principalmente pela agressão interior. Mesmo que a agressão esteja voltada para nós mesmos, como muitas vezes está, ela costuma se basear nessa raiz de ódio.

Quando estudamos os fundamentos do Buddha-dharma, há algo dentro de nós que logo compreende: “Sim, é assim mesmo.” Pode ser que isso se desdobre em um senso de confiança, porque pensamos: “Se esses ensinamentos básicos são tão claros e tão verdadeiros, então talvez haja ensinamentos mais avançados que minha mente deludida ainda não é capaz de compreender por completo neste momento.” E então, se não entendermos alguma coisa, em vez de dizermos “Não, tudo isso está errado porque eu não entendo e não combina com as minhas concepções”, podemos dizer: “Neste momento não compreendo. Isto não está de acordo com a forma como eu vejo as coisas. Por enquanto, vou colocar este assunto de lado e depois, quando tiver estudado, praticado e experimentado um pouco mais, vou retomar e olhar outra vez.”

Portanto, não somos hereges se não temos fé cega e uma crença em dogmas. Não é assim. A cada passo do caminho, temos que saber onde estamos colocando os pés. Temos que entender os significados. Temos que questionar. Temos que, de fato, investigar e usar a nossa inteligência.

Na forma tradicional de estudar filosofia no Tibete, cada parte de um determinado texto é debatida. Você já deve ter visto aquelas cenas de pessoas de pé, engajadas nesses debates bastante ritualizados. Elas tomam cada seção e a dissecam, questionando o adversário, tentando desarmá-lo. Cada um tem que defender sua posição com citações dos sutras e dos mestres da tradição budista. E não só isso – devem envolver um ao outro por meio da lógica e da clara exposição de um determinado ponto. Em outras palavras, realmente temos que compreender o que acreditamos e o que não acreditamos, e a razão de acreditarmos ou não. Isso é muito importante. Deveríamos de fato investigar a veracidade de tudo o que levamos. E deveríamos também investigar a verdade de nossas vidas.

Podemos procurar exemplos disso. Se não acreditamos em algo, por que não acreditamos? Podemos discutir com alguém que estudou mais e é mais realizado do que nós e ver se pode nos explicar mais claramente. Se a pessoa não consegue esclarecer o assunto para nós, então o colocamos de lado por ora. Depois, de tempos em tempos, trazemos o tema de volta e examinamos mais profundamente, talvez possamos então dizer “Bem, agora faz mais sentido. Por que não havia ficado claro antes?” Desta forma, no budismo, a fé não é uma fé cega. Isso não é incentivado. O que é incentivado é o tipo de confiança que resulta de saber que os mestres iluminados são realmente iluminados, que de fato compreendem a natureza da realidade e que podem fazer com que a coisa toda fique muito clara para nós. E o que temos a fazer é confiar que, quando estudarmos, analisarmos e investigarmos, tudo ficará muito claro.

À medida que praticamos e integramos o Darma em nossa vida cotidiana, de repente nos pegamos dizendo: “Sim, bem, foi isso que ele quis dizer quando falou tal coisa.” De súbito tudo ganha vida e se torna real. Passa da cabeça para o coração e se confirma. “Certo. Foi isso que ela quis dizer. Sim.”

A devoção é muito mais complicada. Visitando lugares em todo o mundo, tanto no Ocidente quanto no Oriente, uma das principais perguntas é: “Como faço para encontrar o mestre perfeito?” Tenho um amigo na Itália que está convencido de que em algum lugar existe um mestre perfeito esperando por ele e que em algum momento, de alguma forma, irá encontrá-lo. Esse mestre vai dizer a palavra certa ou apenas olhar em seus olhos e afirmar “É você”, ou algo assim, e então ele irá se iluminar! Se não for capaz de lhe conceder a iluminação instantânea, obviamente não é o mestre perfeito. E assim, meu amigo italiano não faz nada. Não pratica. Ele sente que praticar e tentar fazer qualquer esforço por si mesmo é contraproducente” Basta esperar até que o carma esteja correto e o mestre apareça, e pronto. Embora este seja um caso extremo, você ficaria surpreso com quantas pessoas acreditam nisso secretamente.

Muita gente tem essa fantasia de topar com um iogue ou lama sentado no topo de uma montanha, que erguerá os olhos e dirá: “Ah, estava à sua espera. Porque demorou tanto?” As pessoas pensam que, se conseguissem encontrar o mestre perfeito, o mais adequado para elas, todos os seus problemas seriam resolvidos. Às vezes eu digo para as pessoas: “Olha, quando você encontra o seu mestre, aí é que os problemas começam!” Na verdade, mesmo que o próprio Buda estivesse sentado diante de nós neste momento, o que poderia fazer com a nossa mente selvagem e descontrolada?

O budismo tibetano enfatiza muito o lama. Há especial ênfase no que é chamado de lama tsawai ou guru raiz. Devemos entender, em primeiro lugar, que os professores ou lamas de quem recebemos ordenações, iniciações, ensinamentos, ou com quem temos qualquer contato não são de modo algum nosso guru raiz.

Existem muitos níveis de mestres. Há mestres que nos conferem os preceitos. São os nossos preceptores. Existem lamas que nos concedem iniciações, esses são nossos mestres iniciáticos. Existem lamas que nos ensinam a filosofia e o lado intelectual do Darma, são os nossos professores. Há muitos tipos de lamas. Existem lamas que nos dão conselhos e ajuda, e são nossos amigos espirituais, nossos kalyanamitra. É bastante raro encontrar o lama que é nosso guru raiz ou do coração. Segundo a tradição, pelo menos nas escolas Kagyu e Nyingma, o guru raiz é o lama que nos aponta a verdadeira natureza da mente. Aquele que nos aponta a consciência nua essencial que está por trás do ir e vir conceitual dos pensamentos e que nos revela a nossa natureza de buda inata. Esse é o guru raiz.

Sou muito afortunada por ter encontrado o meu próprio lama, Khamtrul Rinpoche, quando tinha 21 anos de idade. Embora ele tenha falecido em 1980, com 48 anos de idade, renasceu rapidamente e está agora na casa dos vinte anos. É o chefe espiritual do mosteiro que fundamos. Em todos esses anos, sempre foi o meu lama e está sempre no meu coração. Dessa forma, pode-se dizer que eu tenho devoção. E nisso sou constante, mas é porque, para mim, Rinpoche é o que se chama de tserab gyi lama, que significa lama por todas as nossas vidas. Em cada vida, quando nos encontrarmos com o nosso professord e novo, há um reconhecimento imediato de ambos os lados. Isso é muito favorável, porque então não há necessidade de duvidar; há uma aceitação imediata. O importante é que precisamos de confiar no lama. Confiar que ele nos entende melhor do que nos entendemos. Como poderia nos guiar se não nos conhecesse e não nos enxergasse mais claramente do que nós mesmos?

Também é possível encontrarmos mestres com os quais não temos esse senso de aceitação e reconhecimento imediato, e gostarmos deles. Temos a sensação de que “é uma pessoa boa”. Às vezes conhecemos lamas e pensamos: “Não sei no que ele acredita, mas, seja o que for, estou com ele.” Há essa sensação de confiança estantânea.

Mas não sabemos, e aí é que fica complicado. Em nossa cultura somos muito levados pelo carisma. É uma cultura de adoração a estrelas de cinema, estrelas do rock e desportistas. Mesmo os nossos presidentes por vezes acabam sendo os que têm mais glamour, e podemos ficar presos a esse carisma como se fosse uma qualidade interior genuína. Às vezes os professores mais carismáticos não são os que têm a realização interior mais genuína. Alguns dos seres mais realizados parecem desprovidos de carisma, totalmente despretenciosos, e aparentemente comuns.

Sua Santidade o Dalai Lama diz que, de acordo com os textos tântricos, devemos examinar o lama por pelo menos três anos e no máximo 12 anos. Devemos examiná-lo, ou como Sua Santidade diz, devemos “espionar” o lama. Porque não se trata apenas de como ele se mostra quando está no trono, dando ensinamentos e iniciações, mas também de como é nos bastidores. Como trata seus assistentes; como trata as pessoas que não são de particular importância para ele? Não como trata seus grandes patrocinadores, mas como trata as pessoas comuns? Vejam; observem. Não se deixem enganar pelo glamour; não se impressionem com a reputação; não sejam seduzidos pelo fato de ele ter milhares de alunos e grandes organizações. Vejam; procurem saber. Perguntem não apenas aos seus discípulos, mas também a outras pessoas. Investiguem, porque depois de tomarmos um lama como nosso guru de coração, colocaremos nossa vida em suas mãos. E, como se costuma dizer, se ele não for um verdadeiro guru, mestre e discípulo saltarão para o abismo de mãos dadas.

Em uma conferência de mestres, um professor ocidental muito famoso perguntou a Sua Santidade o Dalai Lama: “Como lidamos com a questão de sentarmos em um assento elevado e darmos ensinamentos e depois agirmos como uma pessoa comum em nossa vida cotidiana? Como preenchemos essa lacuna entre a persona espiritual que oferecemos às pessoas e quem somos nos bastidores?” Sua Santidade pareceu confuso e disse: “O quê?”. O professor fez a pergunta de forma diferente, e Sua Santidade olhou para o tradutor, novamente perplexo, perguntando: “O quê?” O professor ocidental tentou de novo, reformulando a pergunta, e Sua Santidade então disse: “Se existe alguma diferença entre quem você é sentado em seu trono e quem é nos bastidores, então você não deve se sentar no trono.” Ele explicou que isso não significa que não possamos relaxar, mas, essencialmente, que deve haver uma continuidade. Se nos bastidores mudamos e nos tornamos uma pessoa diferente da que apresentamos como professores, então não devemos ser professores.

Temos de olhar nossos professores com cuidado. Eles são os mesmos, são compassivos em todas as circunstâncias? É muito importante. São sempre gentis, até mesmo com pessoas que não têm nenhuma importância? Eles ficam com raiva? Qual é a sua reputação? São éticos? Se o professor é do sexo masculino, como é sua relação com discípulos do sexo feminino? Há discípulos do sexo masculino? Aqueles que estudaram com esses professores por muitos anos são pessoas melhores? Como são as pessoas ao redor do professor? Conheci um lama bastante controverso que vivia nos Estados Unidos e era um bom amigo de meu lama, Khamtrul Rinpoche. Perguntei a Khamtrul Rinpoche sobre ele: “Bem, a essa altura é muito difícil saber. Temos que esperar vinte anos e depois olhar os alunos. Não dois anos, mas vinte anos. Dê-lhes tempo para amadurecer, e então olhe.”

Nesse interím, como eu disse, existem muitos níveis de professores. Somos gratos a todos, não apenas aos lamas, mas aa qualquer um que nos ensine alguma coisa. Ainda que deixem um pouco a desejar em alguns aspectos, lembramos e sentimos gratidão por aquilo que aprendemos com eles. Embora sejamos muito gratos a cada mestre de quem recebemos ensinamentos, a todos os professores de quem recebemos iniciações, e os tenhamos em nossa árvore de refúgio, eles ainda assim não precisam ser o nosso lama de coração.

Durante a infância de Sua Santidade o Dalai Lama, dois regentes do Tibete foram seus professores. Eram bastante especiais, mas com falhas em certos aspectos. Um deles tinha uma amante e filhos, embora devesse ser monge. Além disso, os regentes estavam tentando matar um ao outro, e um deles conseguiu. Isso é muito pesado. E eles eram professores do Dalai Lama. Todavia, Sua Santidade disse: “Eu sei que fizeram essas coisas, mas ainda os mantenho em minha árvore de refúgio, pois lembro de sua bondade para comigo. Lembro dos ensinamentos que me deram, e lembro de como me ajudaram. Mesmo assim, não fecho os olhos, nem tolero todas as coisas que fizeram de errado.” Mais uma vez, aqui não há fé cega. Se algo está errado, não temos que fechar os olhos ou tentar varrer as coisas para debaixo do tapete. Continuo citando Sua Santidade para que não pensem que sou a única a dizer isso!

Sua Santidade também disse que, se houver algum problema quanto ao professor, se os alunos tiverem dúvidas, devem expressá-las ao professor. Pode haver, por exemplo, má conduta sexual, ou algum tipo de manipulação, ou dúvidas sobre a situação financeira. Talvez o professor esteja fazendo mau uso das oferendas, sustentando sua família ou se sustentando. O aluno deve confrontar o professor educamente, mas com firmeza e dizer: “Olha, por que isso está acontecendo? Não entendo por que você está fazendo isso. Talvez não seja assim que as coisas devam ser feitas.” E então a resposta cabe ao professor. Ou o professor diz: “Sim, sinto muito, isso é uma fraqueza minha. Peço desculpas. Vou tentar melhorar as coisas a partir de agora.” Ou diz: “Ah, não, esta é uma prática tântrica elevada, você não entende. Está além de seu nível de realização.” Nesse caso, Sua Santidade diz “vá embora.” Sua Santidade também diz, embora eu não tenha certeza de concordar com isso: “Faça com que todos saibam; não mantenha em segredo.”

Os tibetanos, como a maioria dos asiáticos, tendem a varrer as coisas para debaixo do tapete e depois trocar o tapete, como se a sujeira não estivesse mais lá. Como se tudo o que tivéssemos a fazer fosse fechar os olhos e a boca com relação aos problemas e ir embora. Talvez essa seja uma dificuldade das organizações religiosas em todos os lugares, não apenas na Ásia. Sua Santidade é muito incomum por ser tão sincero, mas ele se preocupa muito com o risco que a reputação do budismo esteja correndo por causa da conduta de alguns lamas. Sua Santidade também se preocupa porque muitas vezes não fica sabendo das coisas. As pessoas não gostam de contar para ele. Às vezes, quando visita centros de meditação, ele aparece sorrindo com esses lamas porque não sabe que são controversos. Ninguém conta para ele.

Participei de uma conferência em que ele disse: “Olha, se vocês souberem de alguma coisa sobre qualquer lama que não esteja correta, por favor me digam. Digam-me agora. Ou, se não quiserem se levantar e falar sobre isso, mandem uma carta. Prometo que o assunto ficará apenas entre o meu secretário e eu, vamos tratar disso, mas eu preciso saber.” Ele falou isso porque há abusos; tem gente que encobre e finge que tudo faz parte das práticas tântricas.

Uma vez perguntei a meu lama, Khamtrul Rinpoche: “Visto que o yoga sexual é o caminho rápido, por que vocês são todos monges?”. Ele respondeu: “Sim, é verdade, é uma maneira rápida e especial, mas você tem que ser praticamente um Buda para praticá-la. É extremamente difícil, extremamente duvidosa, e pouquíssimos são capazes de praticá-la”. Outro lama Kagyu também me disse que achava que hoje em dia não havia mais ninguém que realmente fosse capaz de praticar o tantra sexual.

Estou dizendo isso a vocês apenas porque acho que não devemos ser ingênuos. Fé e devoção não significam credulidade. Precisamos de um lama a quem nos conectemos de verdade, sentindo que é um ser digno de nos inspirar. Este ser corporifica o Darma em todas as suas ações – na forma de agir, de falar, de pensar. Nós observamos; olhamos; vemos. Se existir uma integridade perfeita, confiamos. Nos conectamos com o coração e, depois disso, aceitamos o que quer que ele faça. Por isso temos que ser tão cuidadosos.

A devoção ao guru significa que em um certo ponto nos tornamos completamente abertos. O papel do verdadeiro guru é nos mostrar a natureza de nossa mente. A natureza de nossa mente é a nossa natureza de buda inata, que é a mesma que a mente do guru. Veja que não nos aproximamos do guru pelo seu corpo, ou sua personalidade, nem mesmo pelo que ele aprendeu. Tomamos refúgio na sua mente dharmakaya e no fato de incorporar dharmakaya – que ele mesmo realizou e é capaz de revelar para nós e nos guiar.

A primeira coisa que o guru nos revela é a nossa verdadeira natureza, nossa consciência nua, que está por trás do vai e vem dos pensamentos, a nossa natureza de buda. A fim de fazer isso, o próprio guru deve ter essa realização e a capacidade de transmití-la. O aluno, por sua vez, deve estar aberto. A conexão tem sido descrita como um corredor com duas portas. O guru abre uma porta, mas o aluno tem de abrir a outra porta, para que haja espaço através do qual o vento possa soprar. Assim, ainda que o guru seja o maior guru do mundo, se da nossa parte estivermos fechados, nada será transmitido. Para que o aluno se abra, tem que haver total confiança e devoção. Por isso a devoção é tão enfatizada.

A devoção pode iluminar até mesmo um gesto muito simples. Conheci uma monja inglesa mais velha que veio ao mosteiro de meu lama em Tashi Jong na época das danças anuais dos lamas. Isso foi no tempo do Khamtrul Rinpoche anterior. Ela estava ali sentada vendo-o dançar, e, é óbvio, sua mente estava muito aberta. Quando ele se virou, encarou-a e, ao fazer isso, foi como se toda a mente conceitual da monja tivesse se desmanchado. Ela realizou por conta própria a natureza da mente. E isso que nem era seu lama; ela estava ali penas para assistir as danças! Mas como naquele momento a sua mente estava aberta, e obviamente ela estava se sentindo muito relaxada, espaçosa e aberta enquanto o observava, o lama foi capaz de transmitir algo mesmo enquanto dançava.

Mas isso é apenas o começo. Uma vez que tenhamos visto a natureza de nossa mente, como disse o meu lama, então poderemos começar a meditar. Não é o fim, é o começo. Precisamos que o professor, o guru, nos guie, porque cada um de nós é único, vindo de um lugar diferente, e cada um de nós tem necessidades muito diferentes. Quando eu era mais jovem, na comunidade de meu lama em Tashi Jong viviam três monjas ocidentais. Uma era dos Estados Unidos, outra da Holanda, e a outra era eu mesma. Muitas vezes recebemos iniciações e transmissões orais juntas. Escolhíamos certas práticas e pedíamos iniciações em conjunto com a transmissão oral do texto. Os lamas esperavam e davam as iniciações a nós três ao mesmo tempo. Mas o ensinamento sobre o texto era dado a cada uma de nós separadamente, mesmo que fosse dado pela mesma pessoa. Nunca recebemos ensinamentos juntas. Cada uma recebia um ensinamento um pouco diferente. Para dar um exemplo: havia um ensinamento em que tínhamos que visualizar uma mandala de 120 deidades diferentes: um conjunto externo, um conjunto por todo o corpo, e um conjunto no coração. Por fim tínhamos certa de 600 deidades diferentes para visualizar, e cada uma delas tinha três cabeças e seis braços, além de uma consorte, e as cores não combinavam. Minhas irmãs receberam a instrução de visualizar apenas de forma aproximada, apenas para senti-las. Então, quando fui receber o ensinamento, perguntei: “Visualizar vagamente, de forma aproximada?”. Mas o lama disse: “Não, não, visualize-as com bastante precisão; visualize realmente cada deidade com bastante clareza. Se conseguir de fato sustentar toda essa coisa, sua mente se elevará rapidamente e se tornará muito vasta.” Cada uma de nós foi instruída de forma bastante distinta, com ênfases distintas, porque éramos muito diferentes umas das outras e tínhamos necessidades diferentes. Um verdadeiro professor entende isso.

No início, todas recebemos o mesmo tipo de ensinamento sobre as mesmas coisas. Fizemos ngondro, fizemos outras práticas que todo mundo faz. Mas depois disse perguntei a Khamtrul Rinpoche: “O que devo fazer?” E ele disse: “Bem, o que acha de tal e tal prática?” E eu respondi: “Sim, está bem! Fantástico! Vamos fazer isso.” Então voltei para as minhas irmãs de Darma, e elas disseram: “Oh, tomara que ele não nos diga para fazer isso!” Então eu disse: “Bem, se essa é a sua reação, é claro que ele não dirá.” E não disse. O que uma pessoa precisa não é o que a outra precisa, e o que a tradição tibetana tem de glorioso é que há muitas opções. O verdadeiro guru irá guiá-lo. Irá encontrar as práticas que você precisa para tornar seu corpo e sua mente saudáveis. É uma relação de pessoa para pessoa.

Enquanto isso, nós praticamos, praticamos e praticamos. Há tantos professores maravilhosos, tantos livros. Temos muita sorte – recebemos educação e podemos ler. A maioria dos tibetanos, mesmo aqueles que são educados, nunca senta e lê um livro. Eles esperam até que alguém lhes dê ensinamentos sobre um determinado livro antes de lê-lo. Se alguém percorre o texto frase por frase e explica, eles leem. Se dermos um livro para um tibetano, até mesmo para um tibetano educado, e perguntarmos: “Você pode explicar?”, ele vai olhar para o livro e dizer: “Ah, não, desculpe, eu nunca recebi os ensinamentos sobre isso.” E se insistirmos: “Não, não, apenas estas palavras”, ele dirá: “Não, não posso. Nunca me ensinaram isso.”

Mas podemos pegar e ler praticamente qualquer livro porque fomos educados para isso. Que sorte! Podemos ter muitos professores, e muitos professores vêm e nos dão ensinamentos. Isto é uma sorte extraordinária. Podemos praticar. Há práticas que qualquer um pode fazer. Mas primeiro temos que limpar nossa mente. É como se fôssemos vasos cheios até a borda com água suja. Agora, se o Buda mais perfeito chegasse trazendo néctar, com poderia despejá-lo em um vaso que já estivesse cheio de água suja? Primeiro temos que esvaziar o vaso e limpá-lo para que esteja pronto para receber o néctar. Caso contrário, tudo o que for vertido no vaso ficará contaminado. Enquanto nossa mente estiver repleta dos venenos das emoções negativas e do lixo e da sucata das opiniões, memórias e julgamentos desgastados, onde haverá espaço?

Se você já foi para o Tibete, sabe o tanto que há de espaço vazio. Ao sair de Lhasa, o vazio é perceptível. Você pode andar dias e dias sem ver quase nenhuma árvore, nenhum prédio e nem uma única pessoa. Vazio. Por isso, quando os tibetanos preparam suas ornamentações ou quando pintam suas thangkas, repare – eles não deixam nenhum espaço! Não há espaço porque fora há muito espaço. Da mesma forma, a ment dos tibetanos era tradicionalmente bastante vazia. Sem televisão, sem revistas, sem romances, sem filmes – nada, apenas um monte de espaço vazio. E então eles preenchiam aquele vasto espaço com visualizações extremamente complexas e com uma filosofia extremamente complexa, porque havia muito espaço.

Mas nossa mente ocidental está na maioria das vezes abarrotada, principalmente com lixo. Então, onde podemos colocar as preciosas sementes de Darma. Como podemos plantá-las em uma lata de lixo? Temos que preparar o jardim da nossa mente – jogar fora um pouco do lixo, cavar, retirar as ervas daninhas, jogar fora as pedras, e deixar a terra pronta. Temos que trabalhar de verdade na preparação do solo. Assim, quando alguém chega trazendo as sementes perfeitas da árvore bodhi e as plantas, a árvore cresce – contanto que ofereçamos água, fertilizante e demos a elas a luz do sol das bençãos. Só assim podemos absorver os ensinamentos e utilizá-los. Caso contrário, nem mesmo os grandes mestres poderão causar muito efeito.

Cada um de nós precisa olhar para a sua própria mente e ver claramente o que está lá e o que precisa ser feito, para que possa se preparar para receber, praticar e se tornar um com o Darma perfeito. É um desafio, não é fácil. Mas o lamas estão aqui. Eles são muito compassivos e têm vindo continuamente para o Ocidente. Eles semeiam as sementes do Darma em todos os lugares, na esperança de que algumas venham a florescer. Mas, para fazer valer a pena, temos que prepar o solo. Temos que ser vasos adequados. Ninguém pode fazer isso por nós. Nem mesmo o guru mais perfeito pode trilhar o caminho por nós. Cada um tem que percorrê-lo por si mesmo.

Jetsunma Tenzin Palmo,