"Se houver relacionamento, faço; se não houver relacionamento,
saio". Um Mestre Zen, no final do século passado, fez a seguinte alteração: "Havendo relacionamento, faço; não havendo, crio
relacionamento".
Essa mudança de paradigma é extremamente importante. Devemos também lembrar que criar um relacionamento não significa, necessariamente, obter resultados imediatos, embora muitas vezes estes ocorram.
Novos relacionamentos em padrões antigos perdem seu significado. Precisamos criar relacionamentos a partir de novas maneiras de nos relacionar, de ver o mundo, de ser, de inter ser. Essa nova maneira pode, inclusive, recarregar de energia positiva antigos relacionamentos.
Para descobrirmos novas maneiras precisamos, primeiramente desenvolver a capacidade de perceber como estão nossos relacionamentos atuais.
Observe e considere meticulosamente a si mesmo. Perceba como está se relacionando em casa, na rua, no trabalho, no lazer. Perceba como respira, como anda, como toca nos objetos, como usa sua voz, como são seus gestos e como são seus pensamentos e os não pensamentos. Esse observar não deve ser limitante, constrangedor, confinador. Apenas observe. Como você se relaciona com o meio ambiente, biodiversidade, reciclagem, justiça social, melhor qualidade de vida, guerras, violência, terror, paz, harmonia, respeito, garantia dos Direitos Humanos? Como você e o seu logos se relacionam entre si e em relação aos projetos de sucesso, de lucro, de desenvolvimento e progresso de sua organização?
Como está se relacionando com o mais íntimo de si mesmo, com a essência da Vida, com o Sagrado?
Será que é capaz de ver, ouvir, sentir e perceber a rede de inter relacionamentos de que é feita a vida? Percebe e leva em consideração, na tomada de decisões, a interdependência?
Tanto individualmente, como no coletivo, nossa participação e compreensão como estão?
Será que estamos conscientemente vivendo nossas vidas e direcionando nossos pensamentos, ações e palavras para o sentido de mudança que queremos e sonhamos?
Mahatma Gandhi disse: "Temos de ser a transformação que queremos no mundo".
Geralmente pensamos no mundo como alguma coisa distante e separada de nós, mas nós somos a vida do universo em constante movimento. Podemos até dizer que o mundo somos nós. Nossa vida forma o mundo, é o mundo, não apenas está no mundo. Inclui todas as formas de vida e seus derivados e nos inclui neste instante, instante após instante.
Há um monge chinês do século VII, Gensha Shibi , que dizia : "O Universo é uma jóia arredondada. Somos a vida desse universo em constante transformação. Nada vem de fora, nada sai para fora".
De momento a momento tudo está mudando, nós fazemos parte dessa mudança e podemos escolher, discernir qual o caminho que queremos dar a esse constante transformar. É por isso que digo que a transformação começa em nós. Na verdade vai além de apenas começar. É em nós. Nossa capacidade humana de inteligência e compreensão nos permite fazer escolhas. E o que estamos escolhendo?
Outra frase de Mahatma Gandhi: "Quando uma pessoa dá um passo em direção à Paz, toda a humanidade avança um passo em direção à Paz".
A minha decisão, a sua decisão pode transformar ou influenciar a direção da mudança.
Há um sutra budista que descreve o mundo como uma rede de inter relacionamentos.
Como se fosse uma imensa teia de raios luminosos e em cada intersecção uma jóia capaz de receber essa luz e emitir raios em todas as direções. Qualquer pequena mudança afeta o todo. Cada ser que se transforme em um ser de paz, de harmonia, de ternura, carinho e respeito pela vida em todas as suas formas estará sendo uma mudança viva e influenciando tudo e todos. Qual o primeiro passo? Conhecer a si mesmo. Conhecer nossos mecanismos.
O que nos afeta, nos incomoda? O que nos alegra? O que nos irrita? Como transformar a raiva em compaixão? Como transformar o desafio em competição leal, justa, empreendedora, enriquecedora? Sem nos preocuparmos com os créditos, se formos capazes de fazer o bem, não fazer o mal, fazer o bem aos outros estaremos transformando nossos lares, nossas amizades, nosso ambiente de trabalho, nossas organizações, nossas cidades, estados, países, nações, mundo... e a nós mesmos...no florescimento da Cultura da Paz.
"Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Transcender corpo e mente seu e dos outros. Nenhum traço de iluminação permanece e a Iluminação é colocada à disposição de todos os seres." (Mestre Zen Eihei Dogen - 1200-1253).
É importantíssimo que iniciemos este "estudar a si mesmo", já. Cada um de nós que perceber seu próprio mecanismo ficará em controle desse mecanismo e não mais à mercê de seus sentimentos e emoções, desejos e frustrações, puxado, empurrado, espremido e puxando, empurrando, espremendo - envenenados pela ganância, raiva e ignorância.
Imagine um mundo aonde podemos brilhar uns para os outros, sem ódios, mas com carinhoso respeito e terna compreensão. Percebendo nossas diferenças, aceitando a diversidade da vida, as diversidades entre as pessoas e juntando nossas capacidades tanto intelectuais como físicas na construção desse verdadeiro Céu, Paraíso, Terra Pura, Shambala de que falam as religiões, todas elas.
Cabe a nós, a cada um de nós criar esse relacionamento de carinho com a vida, de ternura com todos os seres, de compreensão, de sabedoria e compaixão para percebermos o Caminho Iluminado e o Nirvana permeando toda a existência.
Há um poder misterioso e indefinível que permeia todas as coisas, eu o sinto apesar de não enxergá-lo. É esse poder invisível que se faz sentir e desafia todas as evidências, porque é tão diferente de tudo o que eu percebo através de meus sentidos. Ele transcende os sentidos. Mas é possível concluir através da razão a existência de Deus até certo ponto. Até mesmo nas atividades corriqueiras, nós sabemos que as pessoas não sabem quem governa ou porque e como Ele governa, e ainda assim eles sabem que há um poder que certamente governa. Durante meu tour no ano passado à cidade de Mysore, eu conheci aldeões muito pobres e descobri, após questioná-los, que eles não sabiam quem governava Mysore. Eles simplesmente disseram que algum deus governava o local. Se o conhecimento dessas pobres pessoas era tão limitado a respeito de seu governante, não seria surpresa se eu, que sou infinitamente menor do que Deus, do que eles são de seu governante, não percebesse a presença de Deus - o Rei dos reis. Contudo, eu sinto assim como os pobres aldeões de Mysore, que há uma ordem no universo, há uma lei imutável governando todas as coisas e todos os seres que já existiram e existem. Não é uma lei cega, pois nenhuma lei cega pode governar a conduta de um ser um vivo, e graças à pesquisa maravilhosa do Senhor J. C. Bose Foi comprovado que até a matéria possui vida. Essa lei que governa toda a vida é então Deus. Lei e o doador-de-leis são um. Eu não posso negar a lei ou o doador-de-leis porque O conheço tão pouco A minha negação ou ignorância da existência de um poder terreno não vai evitar nada, minha descrença em Deus e em Sua Lei não vai me liberar de suas operações Enquanto humildade e silêncio quanto à autoridade divina deixam a jornada da vida mais fácil mesmo a aceitação de uma lei terrena deixa a vida mais fácil. Eu percebo vagamente que enquanto tudo ao meu redor está sempre mudando, sempre morrendo, há por trás de todas essas mudanças uma força viva que é imutável, que mantém todas as coisas juntas. Que cria, dissolve e recria. Esse poder espiritual informativo é Deus, e já que nada do que eu meramente vejo através dos sentidos pode ou vai persistir, Ele sozinho, persiste. E esse poder é benévolo ou malévolo? Eu o vejo como puramente benévolo, porque enxergo que no meio de tantas mortes, a vida persiste, no meio de tanta injustiça a verdade persiste, no meio da escuridão a luz persiste. Portanto eu concluí que Deus é vida, verdade, luz. Ele é amor. Ele é o Bem supremo. Ele não é meramente um deus que satisfaz o intelecto, se alguma vez o satisfaz. Deus para ser Deus tem que governar o coração e transformá-lo. Ele precisa se expressar em cada minúscula ação de seu partido. Isso só pode ser feito através de uma percepção definitiva, mais real do que os cinco sentidos podem captar. Percepções sensoriais podem e são com freqüência, falsas e enganosas, apesar de nos parecerem reais. Aonde há percepção fora dos sentidos há infalibilidade. Isto é provado não por evidências externas, mas nas transformações da conduta e caráter daqueles que realmente sentiram a presença interna de Deus. Tais depoimentos são encontrados nas experiências de linhagens contínuas de profetas e sábios em todos os países e climas. Rejeitar essa evidência é rejeitar a si mesmo. Essa compreensão é precedida por uma fé inabalável. Aquele que testar a realidade em si mesmo da presença de Deus, pode fazê-lo através de uma fé sincera, mas já que a fé em si mesma não pode ser comprovada com evidências externas, o caminho mais seguro é acreditar na moral do governo mundial e portanto na supremacia da lei moral, da lei da verdade e do amor. Um exercício de fé seria o caminho mais seguro, aonde há uma clara e majoritária determinação para rejeitar tudo o que é contrário à verdade e ao amor. Eu confesso que não tenho argumentos racionais para convencê-los. A fé transcende a razão. Tudo o que lhes posso aconselhar é que não tentem o impossível.
Dizer
alguma coisa sobre meditação é uma contradição. Meditação e algo
que você pode ter, que você pode ser, mas por sua própria natureza não é
possível dizer o que ela é. Ainda assim, diversos esforços foram feitos para
falar sobre meditação. Se apenas um conhecimento fragmentado e parcial for
possível a partir dessas tentativas, já é muito. Ainda que parcial, essa compreensão pode se tornar uma semente. Isto depende
muito de como você ouvir: se apenas escutar as palavras, sem prestar atenção,
então nem mesmo umfragmento chegará até você. Mas se você ouvir atentamente, compreenderá. Escutar
é mecânico: qualquer animal que possua ouvidos consegue escutar. Ouvir e compreender,
contudo, significa que, enquanto você está escutando, toda sua atenção estará centrada
nisso. Aquilo que for dito chegará até você. Sua mente não deve interferir:
ouça sem interpretar, sem preconceitos, sem interferência de outras coisas que
estejam, nesse momento, passando dentro de você, pois tudo isso é distorção.
No cotidiano, você precisa apenas escutar, sem fazer mais nada, porque as
coisas que escuta dizem respeito a objetos comuns. Se eu disser algo sobre a
casa, a porta, a árvore, não é preciso ouvir com atenção, estou falando sobre
objetos comuns. Mas é preciso prestar atenção quando se fala sobre algo como
meditação, pois ela não é um objeto, e sim um estado subjetivo.
Você terá que estar alerta e atento para que alguma coisa possa chegar até
você. Mesmo que seja apenas uma pequena compreensão, já será suficiente. Se
essa compreensão for parar no lugar certo, no coração, crescerá por conta
própria. Primeiro tente entender a palavra “meditação". Essa não é a
palavra mais adequada para o estado que um verdadeiro aprendiz está procurando,
por isso quero falar a respeito de determinadas palavras.
Em sânscrito, temos uma palavra especial para meditação: dhyana.
Essa palavra não tem paralelo em nenhum outro idioma, não pode ser traduzida.
Há dois mil anos é dito que ela não pode ser traduzida pela simples razão que
em nenhum outro idioma as pessoas experimentam o estado que ela denota. Por
isso estes idiomas não possuem essa palavra. Uma palavra só é necessária quando
há algo a ser dito, a ser designado. Em português há três palavras próximas: a
primeira é concentração.
Vi muitos livros que foram escritos por pessoas muito bem-intencionadas, mas
eram pessoas que não experimentaram de fato a meditação. Usam a palavra
concentração como se fosse dhyana, mas dhyana não é concentração.
Concentração
é um estado da mente, e significa que a mente está focada em um único ponto. Em
geral a mente está sempre se movendo, e quando ela se move é difícil pensar apenas
em um assunto. A concentração é necessária para fazer ciência, por exemplo. Não
me surpreende que a ciência não tenha se desenvolvido no Oriente, pois lá a
concentraçãonunca foi valorizada, por não ser necessária para a religião.
Através da concentração, focando em um único ponto, é possível ir cada vez maisfundo em um objeto. É o que a ciência faz: descobre cada vez mais coisas sobre
o mundoobjetivo. Uma pessoa cuja mente está sempre nas nuvens não pode ser um
cientista.
Toda a arte de um cientista está em ser capaz de esquecer o mundo à sua volta ecolocar toda sua consciência em uma única coisa. É como concentrar raios
solares atravésde uma lente. A concentração traz os raios de sol, antes dispersos, para um
único ponto,criando energia suficiente para gerar fogo.
A
consciência tem essa mesma qualidade: concentre-a e você poderá penetrar cada vez
mais fundo nos mistérios dos objetos. A concentração é sempre a restrição de
sua consciência. Quanto mais restrita ela se torna, mais poderosa ela será. Mas
isso não é religião. Muitas pessoas entenderam isso errado, não apenas no
Ocidente, mas também no Oriente, e pensam que concentração é religião. Ela lhe
dá enormes poderes, é fato, mas são poderes da mente.
Segundo
ponto: meditação não é contemplação.
Enquanto
a concentração é direcionada para um único ponto, a contemplação é mais ampla.
Se você está contemplando a beleza, há milhares de coisas belas, e você pode
passar por cada uma delas. Você possui muitas experiências de beleza e pode
contemplá-las todas. Você permanece sempre restrito a um assunto, e isso é
contemplação. Não estar focado em um único ponto, como a concentração, mas restrito
a um assunto. Você e sua mente se moverão dentro desse espaço.
A
ciência usa a concentração como seu método. A filosofia usa a contemplação. Na contemplação,
você esquece tudo aquilo que não pertence ao assunto em questão. A contemplação
é um tipo de sonho lógico, é algo raro. A filosofia depende da contemplação.
Na
filosofia, se alguns fragmentos dentro de um assunto necessitarem de um esforço
mais concentrado, a concentração será usada. A filosofia é feita basicamente de
contemplação, mas pode usar a concentração como ferramenta em alguns momentos.
A
religião, contudo, não pode usar a concentração. Também não pode usar a contemplação,
porque religião não diz respeito a um objeto. Não importa se o objeto estiver no
mundo externo ou se o objeto for sua mente (um pensamento, uma teoria, uma
filosofia), ainda assim será um objeto. A religião diz respeito àquele que se
concentra, àquele que contempla.
Quem
é ele?
Você
não pode concentrar-se sobre ele. Quem irá concentrar-se sobre ele, se ele é você?
Impossível contemplá-lo, pois quem irá contemplar? Você não pode dividir-se emduas partes e colocar uma parte na frente de sua mente, enquanto a outra parte
começa acontemplar. Não há qualquer possibilidade de dividir sua consciência em duas
partes. E,mesmo se houvesse essa possibilidade — repito, não há, mas faço a suposição de
que sejapossível dividir sua consciência em dois para podermos argumentar —, então
aquele quecontempla o outro é você; o outro não é você.
O outro nunca é você.
Em outras palavras: o objeto nunca é você. Você é, de forma irredutível, o
sujeito.
Não há como transformá-lo em um objeto.
É como um espelho. O espelho pode refletir você, pode refletir qualquer coisa
queexista no mundo, mas como fazer que esse espelho reflita a si mesmo? Você não
podecolocar esse espelho em frente a si mesmo, pois se você fizer isso ele não
estará mais emsua posição original. Um espelho não pode espelhar a si mesmo. A consciência éexatamente um espelho. Você pode usá-la para concentrar-se sobre qualquer objeto.
Podeusá-la para contemplar um assunto.
A palavra “meditação’, em português, não é a palavra certa, mas, como não hánenhuma outra, devemos usá-la até que dhyana seja aceita na língua portuguesa,
assimcomo foi aceita pelos chineses e pelos japoneses, pois a situação era a mesma
nesses doispaíses. Há dois mil anos, quando os monges budistas entraram na China, tentaram
encontraruma palavra que pudesse traduzir a sua palavra, jhana.
O Buda Gautama nunca usou o sânscrito como sua língua, usou uma língua que erausada pelo povo. Essa língua chamava-se páli. O sânscrito era a língua dos
sacerdotes, dosbrâmanes, e uma das idéias essenciais da revolução pro movida por Buda era a de
que os sacerdotes deveriam ser derrubados, pois não havia razão para sua existência. O
homempode conectar-se diretamente com a existência, isso não deve ser feito através
de umagente. Na verdade, não pode ser feito através de um mediador.
Isso é fácil de ser compreendido: você não pode amar seu parceiro através de ummediador. Você não pode dizer a alguém: “Olha, estou dando a você 10 reais, por
favor, válá e ame minha esposa por mim. Um empregado não pode fazer isso, ninguém pode
fazer isso em seu lugar — só você mesmo. Caso contrário, os ricos não se preocupariam
comesse assunto tão complexo. Eles têm muitos empregados, muito dinheiro, poderiam
mandaros melhores empregados possíveis, mas por que se preocupariam pessoalmente com
essatarefa?
Há coisas que você precisa fazer por si mesmo: dormir e comer, por exemplo.
Comoentão um sacerdote, que nada mais é que um empregado, poderia mediar o
relacionamentoentre você e a existência, ou Deus, ou a natureza, ou a verdade?
Religião, portanto, não é contemplação.
Não é concentração.
Émeditação.
Mas meditação precisa ser entendida como significando dhyana, porque a palavrameditação, em português, traz sempre uma noção errônea. Vamos primeiro tentar
entendero que ela significa em português. Quando você diz que “medita”, podem
perguntar: “Sobreo que você está meditando?” É preciso que haja um objeto: a própria palavra
traz umareferência a um objeto, e dizemos “estou meditando sobre a beleza, sobre a
verdade, sobreDeus”. Não se pode dizer apenas: “estou meditando”, a frase fica incompleta.
Você tem quedizer sobre o que está meditando, esse é o problema. Dhyana significa “eu estou em meditação”, não é nem mesmo “estou meditando”. Seformos traduzir ao pé da letra, o sentido de dhyana seria “eu sou meditação”.
Buda usou jhana, a transformação de dhyana em páli. Buda usou a linguagem dopovo como parte de sua revolução por que, disse ele, “a religião precisa usar
aquilo que écomum, a linguagem corrente, de forma que os sacerdotes não sejam mais
necessários. Aspessoas podem entender as escrituras, podem entender os sutras, podem entender
o queestão fazendo. Sacerdotes não são necessários”.
O sacerdote é necessário porque usa uma língua diferente, que o povo não pode
usar,e continua reforçando a idéia de que o sânscrito é a língua divina e nem todos
têmpermissão para lê-la.
Através de Buda e de sua revolução, jhana chegou à China, onde tornou-se ch’an.
Como não tinham uma palavra própria, usaram jhana, mas, como em cada idioma apronúncia se altera, surgiu a palavra ch'an. Ao chegar ao Japão tornou-se zen,
mas ainda ea mesma palavra dhyana. Aqui estamos usando a palavra meditação no sentido de
dhyana.
Em português é algo entre concentração e contemplação. A concentração é focada
emum único ponto, enquanto a contemplação abrange uma área mais extensa, e a
meditação éum fragmento dessa área. Quando você está contemplando determinado assunto, háalgumas coisas que necessitam de maior atenção. Então você medita. É isso que“meditação” significa em português: concentração e contemplação são os dois
pólos, ameditação está exatamente no meio. Mas não vamos tomar a palavra em seu sentido
usual, estamos dando a ela um novo sentido.
meditação é sentar-se sem fazer nada — não usar seu corpo nem sua mente.
Se você começar a fazer alguma coisa, ou você entrará em estado contemplativo
ouestará concentrado ou executará uma ação — de toda forma, estará movendo-se
para forade seu centro. Quando você não estiver fazendo absolutamente nada, seja física
oumentalmente ou em qualquer outro nível, quando toda atividade houver cessado e
vocêestiver apenas sendo, isto é meditação. Não é possível fazê-la, não é possível
praticá-la. Épreciso apenas compreendê-la.
Sempre que você conseguir, pare todo o resto e encontre tempo para apenas ser.
Pensar também é fazer, concentrar-se também é fazer, contemplação é fazer.
Mesmo queseja um único momento em que você não esteja fazendo nada e esteja apenas em
seucentro, completamente relaxado, isto é meditação. E quando você pegar o jeito,
poderá ficarnesse estado por quanto tempo quiser. Com o tempo, poderá ficar nesse estado
durante as24 horas do dia.
Após ter experimentado esse estado de tranquilidade, então, aos poucos, vocêcomeçará a fazer coisas, mantendo-se alerta para que seu ser não seja
perturbado. Esta é asegunda parte da meditação. Primeiro, aprender a simplesmente ser, depois
aprenderpequenas ações: limpar o chão, tomar banho, mas sempre mantendo-se no centro.
Depoisvocê poderá fazer coisas mais complexas.
Por exemplo, estou me dirigindo a você, mas minha meditação não foi perturbada.
Posso continuar falando, mas em meu centro não há sequer um ruído. Há apenas
silêncio,silêncio absoluto.
Então a meditação não é contra a ação.
Isso não significa que você tenha que fugir da vida: você se torna o centro do
ciclone.
Sua vida continua e, na verdade, torna-se mais intensa, mais cheia de alegria,
commaior clareza, mais visão e mais criatividade. Ainda assim, você está nas
nuvens, umobservador nas montanhas, apenas vendo o que ocorre a seu redor.
Você não é aquele que faz, mas sim o que observa.
Todo o segredo da meditação está em tornar-se o observador. As ações continuam
emseu nível, não há problemas. Você pode fazer coisas pequenas ou grandes. A
única coisaque não lhe é permitida é perder seu centro.
Essa percepção deve permanecer absolutamente límpida, imperturbável.
A meditação é um fenômeno muito simples.
A concentração é muito complicada porque você precisa se esforçar, é cansativo.
Acontemplação é um pouco melhor porque você tem mais espaço para se mover. Você
nãoestá se movendo através de um pequeno buraco que irá se tornar cada vez mais
estreito,como na concentração.
A concentração tem a “visão de túnel”. Você já reparou em um túnel? Visto de umlado, de onde você está olhando, ele é grande. Mas se o túnel tiver três
quilômetros, o outrolado será apenas uma luz redonda e pequena. Quanto maior o túnel, menor será o
outro lado. Quanto mais brilhante for o cientista, maior será o túnel. Ele precisa
focar, e focar ésempre algo tenso.
A concentração não é natural para a mente. A mente gosta de vagabundear, de
moversede uma coisa para outra. Está sempre excitada com novidades. Na concentração, a
menteestá quase aprisionada.
Na contemplação há mais espaço para explorar, para se mover. Ainda assim, é umespaço limitado.
A meditação, a meu ver, possui todo o espaço, a existência inteira à sua
disposição.
Você é o observador, pode observar toda a cena. Não é preciso esforço para se
concentrarem uma coisa, nem para contemplar. Você não está fazendo nada disso, está
apenasobservando. É um jeito. Não é ciência, não é arte, não é trabalho — é jeito.
Você precisa, então, brincar um pouco com a idéia. Sentado no banheiro, brinquecom a idéia de que você não está fazendo nada. Um dia você se surpreenderá: de
tantobrincar com a idéia, ela terá acontecido, pois é algo que está em sua natureza.
Basta esperaro momento certo. E como você não pode saber qual será o momento certo, continuebrincando com a idéia.
Estou usando a palavra “brincar” porque sou uma pessoa pouco sisuda e minhaabordagem da religião não é sisuda.
Continue brincando, aproveite todo o tempo livre. Confortavelmente deitado na
cama,se o sono não vier, brinque com essa idéia. Por que se preocupar com o sono?
Ele viráquando vier, não há nada que você possa fazer a respeito. Você tem esse tempo,
aproveiteo.
Você não precisa sentar-se na posiçao de lotus. Em minha abordagem da
meditação, nãoé preciso se torturar de forma alguma.
Se você gosta de sentar-se em lótus, então faça isto. Mas os ocidentais que vão
para aÍndia levam seis meses para aprender a posição de lótus, e se torturam com
isso. Achamque, quando tiverem aprendido a posição de lótus, terão ganho algo. Toda a
índia senta-seem posição de lótus e ninguém jamais ganhou algo com isso. É apenas a maneira
maisnatural que eles têm para sentar-se. Em um país frio, é preciso sentar-se em
uma cadeirapara ficar longe do chão. Em um país quente, quem se importa com cadeiras? É
possívelsentar- se em qualquer lugar.
Nenhuma postura especial é necessária, nenhum tempo especial é necessário. Hápessoas que pensam que há um momento especial, mas qualquer momento é bom para
ameditação. Basta que você esteja relaxado e querendo se divertir.
Se nada acontecer, não importa Não se sinta mal por isso, pois garanto a você
quealgo acontecera hoje, ou amanhã, ou em tres meses ou em seis meses Não vou
criarnenhuma expectativa porque isso se tornará uma tensão em sua mente. Pode
acontecer emqualquer dia, pode não acontecer depende de quanto você estiver se divertindo.
Sempre que você se sentir relaxado, sempre que não estiver tenso, brinque com aidéia de meditação da forma que lhe expliquei. Fique em silêncio, centrado em
si mesmo, eum dia algo acontecerá.
Há apenas sete dias durante a semana, então algo poderá acontecer na segunda,
naterça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado ou no domingo. Não há como
saber. Apenasaproveite a idéia e brinque com ela tantas vezes quanto for possível. Se nada
acontecer —lembre-se, não estou lhe prometendo nada —, não há problema: você terá se
divertido.
Você brincou com esta idéia, fez uma tentativa.
Dizem que devemos agarrar as oportunidades. Pois eu digo o contrário: continueaberto à meditação e, quando o momento chegar, quando você estiver realmente
relaxado eaberto, a meditação irá agarrá-lo.
E depois disso não o deixará mais.
Não há como. Então pense duas vezes antes de entrar neste jogo!