terça-feira, 23 de setembro de 2014

Desmatamento da Amazônia aumenta poluição em países da América do Sul - Agência FAPESP



Os estados amazônicos do Pará, Rondônia, Amazonas e Acre têm "exportado" a fumaça produzida pelo desmatamento por fogo para Bolívia, Peru e Paraguai e contribuído para aumentar os níveis de poluição atmosférica nesses países vizinhos. Ao lado do Mato Grosso, esses quatro estados também registram o maior número de focos de queimadas na América do Sul.

A constatação é de um estudo feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que utilizou o supercomputador Tupã, instalado na instituição com recursos da FAPESP e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Alguns resultados do estudo foram apresentados em uma palestra sobre o impacto trinacional da queima da biomassa e da fumaça na Amazônia Sul-Ocidental, realizada durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que terminou no domingo (27/07), no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco.

“A maior produção de fumaça resultante da queima de floresta na América do Sul é brasileira. O Brasil realmente exporta fumaça de queimadas e contamina os demais países da região”, disse Saulo Ribeiro de Freitas, pesquisador do Inpe, à Agência FAPESP.

De acordo com Freitas, as queimadas florestais ocorrem em escala global. Na América do Sul, contudo, podem ser registrados mais de 5 mil focos de queimadas em um único dia. Durante um mês, o acúmulo de vários focos de queimadas gera plumas de fumaça. Ao serem transportadas por massas de ar produzidas na região Norte e no centro do Brasil, essas plumas de fumaça chegam à região sul da América do Sul e podem cobrir áreas de até 5 milhões de quilômetros quadrados, como se observou em imagens de satélite.



“O tipo de circulação de ar predominante na estação seca na região Norte do Brasil faz com que exista um corredor de exportação que canaliza a fumaça produzida pelas queimadas nessa região para o oeste da América do Sul, invadindo a área do Peru, Bolívia e Paraguai”, disse Freitas.


“Esse corredor muitas vezes também alcança a Argentina e só é bloqueado quando há a entrada de uma frente fria, que pega a fumaça vinda do norte do Brasil e a devolve para o país. Quando essa inversão ocorre é possível observar colunas de fumaça passando sobre a cidade de São Paulo, por exemplo”, disse.

A fim de estimar as fontes de emissão de fumaça por queimada na Amazônia e indicar a contribuição relativa de cada estado amazônico e país da região, os pesquisadores desenvolveram nos últimos dois anos um sistema baseado em dados de satélites e em modelagem numérica (computacional).

O sistema é capaz de identificar onde há focos de queimadas na América do Sul e estimar a quantidade de fumaça e, consequentemente, de poluentes do ar emitidos isoladamente em cada um dos estados brasileiros ou países da região.

Emissões no Acre

O sistema foi utilizado para identificar as fontes de emissões de poluentes por fumaça de queimadas – como partículas em suspensão na atmosfera ou aerossóis atmosféricos – nos anos de 2005, 2008, 2009 e 2010 no Estado do Acre.

Algumas das constatações das simulações foram que entre 5 e 10 dias por ano o ar do estado apresenta uma concentração média de aerossóis atmosféricos com diâmetro acima de 2,5 mícrons (µg) – considerado o mais relevante em termos de impactos à saúde – na faixa entre 40 e 80 mícrons por metro cúbico (µg/m³), acima dos limites considerados toleráveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Durante a estação seca – entre julho e novembro –, o ar no Acre permanece por períodos de até 30 dias com níveis de concentração média de partículas em suspensão com 2,5 µg nesta mesma faixa.

No período de seca de 2005, por exemplo, em que as emissões por queimadas no Acre foram muito altas, a média mensal de emissões de particulados pela queima de biomassa no estado atingiu 90 µg/m³. “Constatamos essas mesmas variações na qualidade do ar do estado nos quatro anos simulados no estudo”, contou Freitas.

Os pesquisadores também calcularam o percentual de poluição atmosférica produzida pela fumaça da queima de biomassa proveniente do próprio Acre e dos estados e países vizinhos.

Os resultados dos cálculos indicaram que em agosto de 2005, por exemplo, os maiores contribuintes de emissões de fumaça da queima de biomassa foram o próprio Acre, seguido do Estado do Amazonas. Já em novembro do mesmo ano a maior parte das emissões foi proveniente do Amazonas e do Pará.

O mesmo padrão de fontes de emissão de fumaça por queimada na região foi observado nos quatro anos de simulações, segundo Freitas. “O maior foco de emissões de fumaça registrada no Acre está no próprio país. Os resultados das nossas simulações mostram claramente isso”, disse.

Legislação trinacional

O estudo foi realizado pelos pesquisadores do Inpe em colaboração com colegas da UFAC, a pedido do Ministério Público do Estado do Acre.

Em razão dos problemas à saúde da população causados pelo aumento dos focos de queimadas no estado em 2005, o órgão impetrou uma ação civil pública em 2007 determinando a proibição do uso de fogo para o desmatamento na região e solicitou às duas instituições um estudo técnico para identificar as fontes de poluição por queimadas no estado.

“Uma das alegações era que a maior parte da fumaça resultante de queimada não era emitida aqui no estado, mas nos países vizinhos, especificamente, a Bolívia e o Peru. Recorremos ao Inpe e à UFAC para saber se era possível determinar a origem da fumaça de queimada no estado”, disse Patricia Rego, procuradora de justiça do Ministério Público do Acre.

Os resultados do estudo indicaram que a possibilidade de a fumaça produzida por queima de biomassa na Bolívia invadir o Acre era muito remota.

“Uma das únicas hipóteses para isso seria as frentes frias do sul da América do Sul transportarem o ar poluído dessa região para o norte do Brasil. Mas esse tipo de ocorrência é muito rara”, afirmou Freitas.

O professor José Montanez Montaño, da Universidad Autónoma Gabriel René Moreno (UAGRM), em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, destacou durante a conferência que, como o problema da queima de biomassa e da fumaça na Amazônia Sul-Ocidental é transfronteiriço, é preciso que Brasil, Bolívia e Peru elaborem uma legislação trinacional para identificar e eliminar as causas.

“O Brasil é o maior emissor de fumaça, mas os problemas causados pela queima de biomassa são sentidos de igual forma pelos três países. Como somos receptores dessa fumaça – e não os emissores –, obviamente somos os mais afetados”, afirmou Montaño.

Original em http://agencia.fapesp.br/19501

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O fim da era do desperdício - Planeta Sustentável

Em duas décadas, diz o economista Gesner Oliveira, em boa parte do planeta faltará água. Para evitar que isso ocorra, há apenas dois caminhos: diminuir o desperdício e aumentar a reutilização



Grandes regiões metropolitanas do mundo podem enfrentar problemas graves de falta de água. O Brasil não está livre desse risco. Para o economista Gesner Oliveira,Ph.D. pela Universidade da Califórnia em Berkeley e presidente da Sabesp entre 2007 e 2010, há duas medidas urgentes a ser tomadas para evitar que a situação atinja o nível de calamidade. A primeira é combater o desperdício. No Brasil, 37% da água tratada é desperdiçada e nem sequer chega às torneiras. A segunda é ampliar a reutilização da água, prática comum nos países que são modelo em abastecimento. 

É inevitável que o mundo sofra com a escassez de água no futuro?
Se medidas urgentes não forem tomadas, é quase certo que tenhamos um problema de saneamento e de abastecimento muito grande já daqui a duas décadas. Não que a água do planeta vá acabar, claro, mas haverá problemas sérios de falta de mananciais utilizáveis nas regiões urbanas. O planeta vive um ritmo de urbanização intenso, em especial na Ásia e na África. Para lidar com isso, é preciso reduzir a perda de água tratada e reutilizá-la cada vez mais. Temos de romper com aquele paradigma da Antiguidade, quando os povos poluíam rios e açudes e iam buscar água cada vez mais longe. Essa prática, que deu origem a lindos aquedutos que ficaram para a história, não é mais viável em um planeta habitado por mais de 7 bilhões de pessoas. 

O crescimento da população é a principal ameaça ao abastecimento?
Não. O que ocorre é que, de um lado, vemos uma urbanização crescente, com o surgimento de macrometrópoles formadas sem o devido planejamento. De outro, observamos o aumento da população da classe média nas economias emergentes. Isso significa que quem não consumia passou a consumir, o que aumenta a pressão sobre o sistema energético e de abastecimento. Existe ainda a questão ambiental. Desmatamentos às margens dos rios contribuem para que estes sequem. E há áreas onde os lençóis freáticos foram tão sobrecarregados que elas agora correm o risco de se tornar desérticas. Na Cidade do México, onde a água subterrânea é muito usada, isso já é uma realidade.

Em São Paulo também se vive um temor de racionamento. O governo falhou em seu planejamento? Subestimou a estiagem?
O fenômeno da estiagem tem sido tão intenso que dificilmente estaria no radar de qualquer governo ou empresa de saneamento. Mas, olhando as dificuldades climáticas que vêm ocorrendo na Califórnia e na África, por exemplo, é fundamental que comecemos a pensar numa mudança para valer - e não me refiro aqui a um plano de dois ou três anos. Falo de mudanças profundas, para os próximos vinte ou trinta anos.

Que tipo de mudanças?
O Brasil desperdiça muita água tratada. Nossa perda média é de 37%. Se o país fosse uma padaria, significaria que, de cada dez pãezinhos assados, estaria jogando 3,7 fora. É muita coisa, sobretudo para uma mercadoria tão vital. Há estados com taxas piores. No Amazonas, as perdas chegam a 70%. No Recife, em Manaus e nos municípios paulistas de Cajamar, Caieiras e Francisco Morato, o desperdício é superior a 40%. A perda média da Sabesp é de 26%, bem menor que a média nacional. Para 2019, a meta é reduzir a taxa para 17%. Ainda assim, ficaríamos acima do padrão internacional considerado bom, entre 10% e 15%.

O que causa tanto desperdício?
Há dois motivos principais. Um é físico. Quando ocorre vazamento em uma adutora, ou mesmo na rua, a água até é reabsorvida pelo solo, mas a um custo muito alto, uma vez que já havia sido tratada, transportada e foi perdida. Jogam-se fora os produtos químicos, a mão de obra e a energia que ela consumiu. Vai tudo literalmente pelo ralo. O outro motivo é comercial. O chamado "gato" não é uma prática destinada a furtar só energia elétrica. Existe o "gato" hidráulico também. Vemos com muita frequência uma tubulação batizada de "macarrão". Em geral, é um sistema muito malfeito e permeável, portanto contaminável, e que às vezes cruza o esgoto. Essa estrutura permite roubar água das companhias fornecedoras. Em alguns casos, esse tipo de furto chega a representar metade das perdas das empresas.

É possível chegar ao desperdício zero?
Não é vantajoso, é antieconômico. Zerar o desperdício tem um custo que não justifica a economia feita. No Japão, dado o custo e a escassez da água, vale a pena investir em perda zero - em Tóquio, menos de 5% da água tratada vai embora sem ser usada. Quando eu estava na presidência da Sabesp, ficava constrangido ao conversar com técnicos japoneses sobre os números brasileiros. Mas o Brasil tem uma enorme margem para melhorias, devido ao tamanho da sua ineficiência. É natural que estejamos discutindo o uso da reserva técnica do Sistema Cantareira, em São Paulo, e se vai chover ou não. Tudo isso é importante, são questões urgentes. O grande mérito desse debate, porém, é que ele vai contribuir para discutir estratégias de longo prazo.

E quais são as medidas fundamentais para garantir que não faltará água no futuro?
São duas. A primeira é a redução das perdas, por meio do aumento da eficiência. Ao abrirem a torneira, as pessoas precisam saber que estão usando um bem valioso. Há muito descaso com a água, talvez porque, das utilidades públicas, ela seja a mais barata. A segunda medida fundamental é ampliar a reciclagem da água que é consumida.

Como é feita essa reciclagem?
Hoje, existe no mundo um nível de tratamento tal que, ao fim dele, é possível beber a água que saiu da estação de tratamento de esgoto, ou seja, que passou pelo vaso sanitário. Pode parecer repugnante para muita gente, mas é como funciona em diversos países. E o método não tem relação com crises hídricas, tra­ta-se de uma medida usual em Israel, por exemplo. Fui lá conhecer essa experiência e posso dizer que não é uma tecnologia de outro planeta. No caso dos israelenses, compensa. Eles não têm muitas opções de captação e estão no meio do deserto. Mas pense no Brasil. Muito da água que bebemos vem de mananciais relativamente poluídos e que passam por tratamento. Algumas captações, como as dos rios Jundiaí ou Juqueri, e mesmo as das represas Billings e Guarapiranga, trazem uma água bruta, que faria passar mal quem a tomasse. Mas, depois de tratada, fica perfeita.

Qual a qualidade da água que chega pela torneira no Brasil?
Posso dizer que, em São Paulo, se a sua caixa-d’água for bem cuidada, não há nenhum risco ao tomar água da torneira. Pode não ser muito agradável porque ela talvez não tenha a mesma limpidez da água engarrafada, que cria no consumidor a ideia de que ele está tomando algo mais puro. Pode haver diferença de coloração e até de cheiro, mas, tecnicamente, trata-se de uma água boa. Embora seja levada muito em conta, a aparência não é importante. Em muitas localidades dos Estados Unidos, por exemplo, a água atende a todas as exigências de saúde, mas não tem coloração agradável.

Se a água da torneira pode ser bebida, o fato de a usarmos nos banheiros, por exemplo, não é também um desperdício?
Sim. A água adequada ao consumo humano é a mesma que usamos no banheiro ou para lavar a rua depois de uma feira. Mas para essas finalidades, digamos, menos nobres, a Sabesp mantém caminhões de água de reúso, que é água reciclada. Para lavar a rua, por exemplo, ela não precisa ter as características químicas exigidas para o consumo humano. O Metrô tem um contrato para a lavagem dos vagões que também estabelece o emprego do mesmo tipo de água. No tratamento-padrão, a água passa por desinfecção, para que microrganismos sejam retirados; coagulação, para que impurezas sejam removidas e deixadas em suspensão; e depois pelas fases de floculação, decantação, filtração e correção do pH. No Brasil, ainda se adiciona flúor, muito eficaz para controlar cáries. Claro que não é necessário acrescentar flúor à água usada para lavar as ruas. Essas medidas de reúso são fundamentais, mas ainda estão em fase inicial. Temos muito que avançar.

Seria possível fazer uma divisão do sistema de abastecimento, com uma rede de água nobre e outra menos nobre?
Sim. Isso reduziria os gastos com produtos químicos, energia e mão de obra. Por outro lado, seria preciso investir na construção dessa outra rede. O Brasil não chegou a esse ponto porque a produção de água de reúso ainda é de menos de 1%. Seria razoável que na próxima década ao menos um quarto da água consumida no país fosse de reúso.

O senhor falou que a água é a mais barata das utilidades públicas. Aumentar a tarifa é a solução?
A solução passa menos por aumentar tarifas e mais por estabelecer regras de uso que obedeçam a critérios técnicos, e não a conveniências políticas. É preciso que o assunto seja regulamentado por um órgão independente e com excelência técnica para estimular o investimento e inibir o populismo. Vale o tripé: boa regulação, bom planejamento e boa gestão. Sem esses pilares, é difícil imaginar cidades saudáveis e recursos hídricos bem aproveitados. Para atrapalhar um pouco, há um raciocínio político muito perverso que diz que esse tipo de investimento não tem visibilidade e, portanto, os dividendos políticos que ele gera não são tão grandes quanto os que rendem a construção de um viaduto, por exemplo. O grande segredo é mudar esse raciocínio e criar dividendos políticos investindo no saneamento. Ao mesmo tempo, é preciso estabelecer penalidades para políticos que deixarem a questão de lado.

A escassez de água traz também o medo do racionamento de energia, já que nossa matriz é hidrelétrica. Como evitar que isso aconteça?
Algumas medidas sinalizam possíveis caminhos a seguir. Um deles é reduzir o gasto energético do próprio sistema de abastecimento, já que o bombeamento é uma das coisas que mais consomem energia. Outra possibilidade é aproveitar a engenharia de captação de água para gerar energia. Os diferentes níveis entre as represas permitem a criação de pequenas centrais hidrelétricas. Há uma no Sistema Cantareira. Ela gera 07 megawatts, o que é pouco, mas indica um caminho. No tratamento de esgoto há geração de gases úteis na produção energética, como o metano. Além disso, o lodo originado nesse processo pode ser usado nas termelétricas e também como matéria-prima na construção civil, por exemplo, na fabricação de tijolos.

É possível produzir água em laboratório?
Até onde conheço, não é um grande investimento. Os cientistas têm se voltado mais para as pesquisas de dessalinização, cujo custo vem diminuindo. Em alguns países, como a Espanha, esse tipo de abastecimento já é um importante plano B. Nas épocas do ano em que chove menos, utiliza-se mais essa água dessalinizada.

Existe algum país que sirva de modelo para o Brasil?
As peculiaridades são tantas que é difícil dizer, mas acho que esse país seria o Canadá, por ter a mesma dimensão continental e uma hidroeletricidade importante. Israel, Japão, Espanha, Austrália e Singapura também poderiam servir de inspiração - têm experiências muito positivas de saneamento e reuso.

Há um limite de vezes em que a mesma água pode ser reaproveitada?
Não, veja que maravilha. A não ser que os mananciais estejam muito poluídos. Nesse ponto, começam os problemas. Eles se tornam inúteis e há um processo de desertificação. Ou então o solo perde a capacidade de absorção e ocorrem enchentes. Na China, já é um problema sério. O consumo explodiu e a preocupação ambiental não acompanhou a economia. Já a Coreia do Sul venceu a poluição e teve experiências bem interessantes ao desenterrar rios e córregos antes canalizados. Foi uma espécie de reurbanização, cujo símbolo é o Rio Han, que renasceu.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O caminho de Shamatha - Equilibrando-me

Há uma linda representação do caminho de Shamatha, a meditação da quiescência ou calmo permanecer, amplamente utilizada em todas as tradições contemplativas.

Nela o elefante representa a mente, que antes do treinamento, está tomado por aflições, medos e expectativas, representados pela cor escura.

O praticante é quem vai treinar a mente. Com a atenção plena – representada pela corda – o praticante procura manter a mente focada no objeto de escolha, e com a vigilância – representada pelo gancho – o praticante monitora a qualidade do foco da atenção.

O macaco representa um dos desequilíbrios da atenção – a distração. Ele tenta arrastar o praticante para todos os objetos dos cinco sentidos – representados pelo tecido (tato), frutas (paladar), perfume (olfato), címbalos (audição) e espelho (visão).

O coelho representa aqui o outro tipo de desequilíbrio da atenção – o embotamento, que pode culminar na sonolência.
Ao longo do caminho, o entusiasmo e também o esforço necessários para a prática são representados pelo fogo.

Aos poucos, o praticante vai domando a mente, até que ao final, livre das distrações e da lassidão, completamente clara. No final do caminho, a concentração perfeita é atingida.
O praticante voando representa o bem-estar físico; e o elefante voando representa o bem-estar mental. Montando o elefante, o praticante passeia por todo o arco-íris, empunhando a espada flamejante do perfeito discernimento.


Fonte: - http://equilibrando.me/2014/07/30/o-caminho-de-shamatha/

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Herdar - Monja Coen Sensei



Podemos nos treinar a responder em vez de reagir. Podemos sair de uma cultura de violência para uma cultura de paz.

Recebemos uma herança de nossos ancestrais. Herança genética e herança ética (ou não ética). O que fazemos com o que herdamos é de nossa responsabilidade.

Não há nada fixo. Tudo pode mudar.

A vida é um processo incessante de transformação. Somos agentes e reagentes dessas mudanças. Buda dizia que temos vários níveis de consciência. O nível mais profundo, chamado consciência alaya, é como um grande depósito com inúmeras sementes que foram desenvolvidas desde o início da vida. As sementes — ou conexões neurais — precisam ser estimuladas para brotar. Nós podemos escolher quais queremos estimular em nós e também quais queremos estimular em outras pessoas.

Mas, se desconhecemos essas possibilidades, agimos no mundo apenas reagindo às provocações e temos reações, muitas vezes, inversas aos nossos propósitos e objetivos.

Os ensinamentos budistas se baseiam em sabedoria e compaixão. Sabedoria parece ser um estado raro, para poucos gurus ou seres especiais. Na verdade, o que Buda ensina é que todas as pessoas podem acessar um estado de sabedoria perfeita. Podemos trocar a palavra por compreensão clara da realidade. É tão fácil a mente enganar a própria mente. É nosso dever e direito, de nascença, despertar. Despertar para a mente clara e incessante, para a mente que compreende a si mesma.

Uma vez fui visitar Zilda Arns, em Curitiba. Ela me mostrou seus projetos de cuidados com recém-nascidos e me disse que “a violência começa no útero materno, até no processo de concepção”.

Quão verdadeiro. Os valores culturais já entram na formação e concepção de um ser humano. Podem ser de uma cultura de violência ou de paz. Semelhante aos ensinamentos de Buda: tudo que existe é o cossurgir interdependente e simultâneo. Não há um antes e um depois, há simultaneidade.

Por isso temos de ser cuidadosos. Cuidado é compaixão. É perceber a necessidade verdadeira de alguém e atender a essas necessidades.

Não apenas atender aos nossos apegos e aversões. Ir além do eu menor. Entretanto, é através dele, do nosso anseio por tranquilidade e alegria, plenitude e felicidade, que podemos adentrar o Eu Maior.

Podemos nos treinar a responder em vez de reagir. Para isso temos de conhecer a mente humana. O mais íntimo é nosso corpo e nossa mente. E mal os conhecemos. Medite.

Quando penetramos nesse nível de conhecimento, nos percebemos a vida da Terra e daí surge o sentimento do cuidado, da compaixão, da ternura. Por tudo que herdamos, que nos mantém vivos. Por tudo que deixaremos de herança.

O que fazemos, falamos e pensamos, repetitivamente, fica gravado de forma invisível no universo. A tendência é a repetição. O que estamos deixando marcado com atitudes, pensamentos, palavras?

Vivemos um momento mágico. Podemos sair de uma Cultura de Violência para uma de Paz.

Ainda há manifestantes com bombas, armas, gritos, ataques, destruições, abusos, raptos, apedrejamentos, enforcamentos, linchamentos.

Mas há muitos que já acordaram, que estão saindo desse passado violento, dessa cultura de torturas, para uma cultura de não violência ativa. Uma cultura de paz.

Seres livres não são manipulados.

Quero você e eu, quero todos nós, absolutamente livres, capazes de ver e compreender, para atuar com ternura e respeito na construção de uma cultura de compreensão e de cuidado. Acorde para a herança que recebeu e vai deixar na Terra.

Texto original em http://www.monjacoen.com.br

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Água, um novo "ouro azul" do século XXI - Por Paloma Esteban (Crisis Del XXI)

  


O forte aumento da demanda, as condições de seca e a má gestão dos recursos naturais são os principais fatores para se preocupar com o futuro da “commoditie” mais essencial de nosso planeta. Todas as indicações são de que a água vai se tornar o novo "ouro azul" nos próximos anos e vai deslocar o petróleo, como a mais valorizada matéria-prima.
Todos os analistas concordam que a água é um bem de investimento para o futuro. Goldman Sachs, em relatório destaca o grande potencial da indústria "ouro azul" e enfatiza que a água é um dos poucos recursos que não participou, diretamente, da inflação dos preços nos últimos vinte anos. No entanto, verificou-se sua participação em, virtualmente, todos os outros ativos em todo o mundo.
Assim, não houve incentivos para encorajar o investimento na indústria da água. Mas isso vai mudar.
Paul B. Farrell, um especialista sobre o comportamento das materiais primas e ex banqueiro de Morgan Stanley, indica que as receitas globais totais dessa indústria envolve 508 bilhões (últimos dados oficiais, de 2010), dos quais o setor agricultura é, sem dúvida, o maior consumidor do mundo, com um pico de 70%. É compreensível, portanto, que a falta de água agrave diretamente o déficit da oferta de alimentos.
Outros exemplos: Mercado de engarrafamento de água gera cerca de 58 bilhões de euros,   enquanto as usinas hidrelétricas; sistemas de distribuição e estações de tratamento chegam a gerar 226 bilhões e os sistemas de tratamento de esgoto, águas residuais movimentam aproximadamente 170 bilhões.
De acordo com os últimos dados da ONU e da OCDE é que 35% da população mundial não tem acesso a água potável. Outro dado de referência fornecido pela ONU é que 50% da população mundial viverá em regiões de escassez hídrica até 2030.. 
A seca, certamente, é um dos principais problemas. Tendo em conta que fora das nossas fronteiras, grandes rios como o Colorado e o Rio Grande só conseguem alcançar o oceano em anos mais úmidos, podemos imaginar que o resto dos rios são muito mais complicados. E, claro, esta questão vai levar, mais cedo ou mais tarde, alguma agitação política e social, com mais de vinte países hoje obter o seu total de água potável através de rios que correm para os países vizinhos. Imagine a dificuldade que as populações mundiais mais altos rios dependentes, como o Mekong, que atravessa a China, Birmânia, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã.
O crescimento da população e o aumento da demanda, juntamente com essas condições de seca são o maior desafio. O melhor exemplo: a China. Como Farrell explica, possui uma população de cerca de 1 bilhão e 344 milhões de pessoas e a próxima geração vai acrescentar mais 100 milhões. Farrell diz que o gigante asiático vai precisar para construir 500 novas cidades para acolher os seus novos moradores. Então, imagine quanta água vai ser preciso para abastecer, cerca de 500 novas cidades e suas milhares de casas. Os dados são enormes e este número é apenas a metade do esperado, para o crescimento da China até 2050.
Outro país de referência é os Estados Unidos, onde a demanda por água triplicou nos últimos 30 anos, apesar de a população aumentar apenas em 50%. Ou seja, a cada 20 anos, o consumo global de água está dobrando.
Então, é a indústria de água um bom negócio? Goldman Sachs argumenta que o "ouro azul" é muito desigualmente distribuído e é um produto necessário para todas as indústrias. Mas, como vimos, não tem valor mensurável. 
Como é possível estimar o valor / preço do barril de um produto que cobre mais de 70% da terra?
O problema da valorização da água está na própria sociedade assumir o "ouro azul" como produto. Em primeiro lugar, temos a tendência de excesso de consumo de água, porque não estamos pagando o preço certo, e, portanto, não damos o valor que este merece.
Em segundo lugar, esta subestimação também fez a gestão da água como "oportunidade de negócio" ser subestimada, por algumas das grandes empresas que tenham participado do negócio, até agora.
Original em http://crisisdelxxi.blogspot.com.br/2012/07/el-agua-nuevo-oro-azul-del-siglo-xxi.html


terça-feira, 29 de julho de 2014

Clima em 2013 refletiu um planeta em aquecimento


Relatório feito por 425 cientistas de 57 países registra aumentos na temperatura, no nível dos oceanos e na taxa de dióxido de carbono, bem como diminuição na extensão de gelo do Ártico
Muitas vezes, as alterações ambientais que ocorrem em nosso planeta não se dão de um dia para o outro e são sutis o suficiente para que algumas pessoas duvidem das mudanças climáticas em curso. Mas, a esmagadora maioria dos cientistas e estudos já reconhece a existência de um processo de aquecimento na Terra, e o mais novo relatório da Sociedade Meteorológica Americana e da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) não é diferente.
O State of the Climate 2013, compilado por 425 cientistas de 57 países, afirma que 2013 foi um dos dez anos mais quentes já registrados, e os dados mostram um aumento contínuo nas temperaturas atmosféricas e oceânicas e na elevação do nível do mar. Tudo isso tem um impacto na formação de gelo no Ártico e Antártida, e essas tendências, por sua vez, influem na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos.
O documento aponta, por exemplo, que, embora algumas partes da América do Norte e do Sul e da Europa central tenham apresentado temperaturas abaixo da média para o ano de 2013, quase todas as outras regiões do mundo registraram temperaturas na média ou acima da média neste ano. A Austrália, em particular, teve seu ano mais quente desde que os registros começaram, em 1910, a Argentina teve seu segundo ano mais quente, e a Nova Zelândia, seu terceiro. O leste europeu e oeste asiático também apresentaram temperaturas bem acima do normal.
O State of the Climate também mostra que, para todos os anos de 1976 até 2013, a temperatura média global ficou acima da média de longo prazo. As temperaturas terrestres aumentaram em cerca de 0,28 grau Celsius a cada dez anos.
Os oceanos também mostram aquecimento, e, embora algumas regiões tenham se apresentado mais frias do que o normal, principalmente na costa oeste da América do Sul por causa de fenômenos como o El Niño, as temperaturas da superfície do oceano subiram em média 0,11 graus Celsius por década durante os 37 anos compreendidos pelo trabalho. E não é apenas a temperatura da superfície oceânica que aumenta, pois o calor também chega às partes mais profundas. Os dados mostram um aumento de locais abaixo dos 700 metros de profundidade que apresentaram elevação da temperatura média. Além disso, o nível do mar continua a subir a uma média de 3,2 milímetros por ano nas últimas duas décadas.

Outras informações preocupantes referem-se à extensão de gelo nos polos. Em setembro de 2012, a extensão de gelo no Ártico atingiu seu menor valor já registrado, e em 2013, embora não tenha atingido o recorde de baixa, teve o sexto menor nível desde que iniciaram as medições, indicando uma tendência contínua de redução do gelo no Ártico.
Já na Antártica há uma maior formação de gelo marítimo, que alcançou uma extensão recorde, cerca de 5% mais do que a média de 1979 a 2013, e com um aumento de pouco mais de 1% por década.
Contudo, esse aumento no gelo antártico marítimo não compensa a perda do gelo ártico marítimo, já que este último apresentou-se 18% abaixo da média no último ano, e a taxa de perda está em 13,7% por década. Não menos preocupantes são as emissões de gases do efeito estufa, que também continuam a subir, tendo atingido valores históricos em 2013. A concentração de CO2 atmosférico aumentou 2,8 partes por milhão (ppm) em 2013, chegando à média global de 395,3 ppm no ano passado. No Observatório de Mauna Loa, no Havaí, a concentração diária de CO2 excedeu 400 ppm em nove de maio pela primeira vez desde o início dos registros, em 1958. Isso ocorreu depois que a marca de 400 ppm foi ultrapassada em alguns locais do Ártico, em 2012.
O número de ciclones tropicais durante 2013 ficou um pouco acima da média, com um total de 94 tempestades em comparação com a média de 89 entre 1981 e 2010. Mas apesar de ser comum relacionar esses eventos extremos com as mudanças climáticas, nem todos podem ser atribuídos diretamente aos efeitos do aquecimento global. Mesmo assim, a severidade desses eventos está mostrando de fato um crescimento, como diz o documento.
Por exemplo, embora a atividade de ciclones tenha ficado praticamente na média em 2013, o tufão Haiyan foi a mais forte dessas tempestades já registrada. “De ciclones devastadores a secas destruidoras, esse mapa ressalta os eventos que os cientistas climáticos de todo o mundo concluíram que devem ir para os livros como os mais significativos”, observa o documento. “Essas descobertas reforçam o que os cientistas observam há décadas: que nosso planeta está se tornando um local mais quente. Esse relatório fornece a informação de base que precisamos para desenvolver serviços para comunidades, empresas e nações para se prepararem e desenvolverem resiliência aos impactos das mudanças climáticas”, concluiu Kathryn Sullivan, administradora da NOAA.


Fonte -site www.akatu.org.br

sábado, 19 de julho de 2014

Crise da água em São Paulo: Quanto falta para o desastre? Por BRUNO CALIXTO E ALINE IMERCIO


O Brasil pede água
Imagine um futuro assim:
Em 2044, o Brasil celebra uma nova redução no número de mananciais poluídos. A grande seca que afetou o Sudeste entre 2013 e 2016 mudou para sempre as políticas públicas. A cada eleição, os candidatos debatem como cuidarão da água. Há anos, avançam por todo o país projetos de despoluição de rios, lagos e represas, assim como o reflorestamento de suas margens. Os depósitos subterrâneos estão protegidos. Quase toda a população conta com água limpa e serviço de saneamento. Não há mais paranoia a respeito dos perigos de exportar água. Como cuida bem de seus mananciais, o país tem água mais que suficiente para produzir a carne, os grãos e as frutas que vende ao mundo. Estudos internacionais confirmam: ao fazer isso, o Brasil beneficia o meio ambiente global e os próprios brasileiros. A exportação evita que países mais pobres em água esgotem seus poucos mananciais. Em paz e alimentadas, nações mais ameaçadas por secas fecham acordos e investem em tecnologia. Conseguem baratear cada vez mais a dessalinização da água do mar. Vários países africanos em rápido desenvolvimento se beneficiam desse avanço.
Agora, imagine outro futuro.
Em 2044, o Brasil lamenta um novo aumento no número de mananciais poluídos. Mais de dois terços dos rios, lagos e represas têm agora água ruim ou péssima, que exige tratamento caro e demorado antes de ser usada. Governo, empresas e cidadãos se ressentem dos erros de décadas. O país se tornou um pesadelo de favelas sem saneamento, reservatórios contaminados e água cara demais. O sistema de represas da Cantareira, em São Paulo, nunca se recuperou da grande seca de 2013 a 2016. Por causa das críticas da sociedade e da atuação de políticos e da Justiça, torna-se difícil destinar mais água à produção agrícola. E mais difícil ainda exportar essa água sob a forma de carne, grãos e frutas. Esse medo encontra eco na situação global. Na Ásia e na África, nações trocam ameaças e se engalfinham em guerras por causa de mananciais cada vez mais ressequidos.
Ambos os futuros, neste momento, são igualmente possíveis. O Brasil é uma potência da água. Não precisa sustentar nem 3% da população mundial, mas abriga 12% da água doce disponível no globo. Essa parcela aumenta para 18%, se contarmos a água que flui dos países vizinhos para o território nacional. Como um país desses pode comemorar o Dia da Água (22 de março) mergulhado numa crise energética e à beira do racionamento nas torneiras? A resposta está no mau uso do recurso.
Nossa crise energética mostra isso. As usinas hidrelétricas respondem pela maior parte da geração de energia no país. Para funcionar, elas dependem de nascentes, rios, lagos e represas bem protegidas por vegetação. Sem a cobertura vegetal a seu redor, sofrem mais com seca e a deposição de sedimentos no fundo, conhecida como assoreamento. O consumo de água e energia cresce continuamente no país, e há grande chance de o padrão climático mudar nas próximas décadas – provavelmente, com mais eventos extremos. É o que dirá o IPCC, painel da ONU sobre mudanças climáticas que lançará seu relatório final no dia 29. Por isso, os sistemas que garantem esses serviços públicos deveriam se tornar mais robustos, a fim de aguentar tanto fases de chuvas torrenciais quanto secas prolongadas.
Não é o que ocorre. O sistema hidrelétrico brasileiro já foi capaz de suportar mais de um ano sem chuva sobre os reservatórios. Essa tolerância está em menos de cinco meses hoje e tende a diminuir nos próximos anos. O problema se agravou com a onda de usinas construídas nos últimos anos, com projetos chamados tecnicamente de “a fio d’água”. Elas dispensam a construção de grandes barragens e reservatórios e tendem a provocar menor oposição social e ambiental. Mas são mais vulneráveis a secas e geram menos energia. Com a seca que atingiu nos últimos meses o Sul e o Sudeste, maiores geradores de energia, nossas reservas baixaram. Reduzir o preço da energia no Brasil é uma causa justa. Mas, por razões políticas, o governo federal não promoveu um esforço de economia de energia. Apenas subsidiou o barateamento da conta de luz e estimulou mais consumo. Desabastecido, o país é obrigado a ligar mais termelétricas a gás, óleo combustível e até carvão. Elas são mais caras e poluidoras.
A seca também expôs, com o chão rachado do fundo dos reservatórios, nossa incapacidade para abastecer as torneiras da população. O problema é mais agudo em São Paulo pela redução no volume de água no Sistema Cantareira, um complexo formado por seis represas, responsável pelo abastecimento de quase 9 milhões de pessoas em 11 cidades, incluindo a capital paulista. A área de captação dos reservatórios enfrenta a maior estiagem desde que começaram as medições, em 1930. Por razões políticas, o governo do Estado adiou as campanhas e medidas para economizar água.
Nas últimas semanas, o nível de água  no Sistema Cantareira caiu abaixo dos 15% do limite máximo. A esta altura do verão passado, o nível chegava a 59%, segundo a Sabesp, empresa que administra o sistema. “Nesse ritmo, o sistema corre um sério risco de secar. Se isso acontecer, a Cantareira poderá demorar até dez anos para encher novamente”, diz Alexandre Vilela, gerente técnico do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Cidades como São Paulo, Guarulhos, Valinhos, Campinas e Itu já preveem racionamento ou já fazem rodízio de abastecimento entre os bairros. O risco da seca levou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, a fazer um pedido incomum à presidente Dilma Rousseff. Alckmin pediu que águas do Rio Paraíba do Sul, que abastece regiões do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba, fossem despejadas no Sistema Cantareira. Trata-se de um pedido emergencial delicado, por envolver o compartilhamento de água entre sistemas em Estados diferentes, administrados por empresas diferentes. Até o fechamento desta edição, não havia um cenário claro sobre a posição dos governos federal e fluminense a respeito.
A seca em São Paulo veio unir-se a problemas crônicos do Brasil. Alguns são naturais, como a falta d’água em Estados com áreas semiáridas, como Ceará, Piauí, Paraíba, Alagoas, Bahia, Rio Grande do Norte e parte de Minas Gerais. Outros problemas não são tão naturais, como a contaminação dos rios usados para o abastecimento, resultado da falta de tratamento de esgoto e saneamento básico. Na região Norte, somente 13% dos domicílios têm acesso a rede coletora de esgoto.  A situação é crítica. No Pará, a falta de saneamento multiplica, talvez por dez, a incidência de doenças”, afirma Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, uma organização dedicada a promover o saneamento. Essa situação é mais crítica no Norte, mas o problema está disseminado pelo país, incluindo as capitais mais ricas. Num ranking de saneamento calculado pelo Banco Mundial, o Brasil fica num vergonhoso 112º lugar entre 200 nações.
Uma pesquisa da Agência Nacional de Águas (ANA) feita no ano passado encontrou água “ruim” ou “péssima” em 44% dos pontos de coleta em cidades no país. Tratá-la e torná-la adequada ao consumo fica mais caro e demorado, quando não inviável. Ela está contaminada principalmente com esgoto doméstico, consequência previsível das estatísticas: quatro em cada dez moradores das cidades brasileiras não contam com saneamento básico (fora das cidades, a situação é ainda pior – mais da metade dos brasileiros não tem saneamento).
O Instituto Trata Brasil calcula que, se toda a população recebesse serviço de esgoto, haveria efeitos mensuráveis não só de corte da poluição que chega aos mananciais, mas também de redução nas mortes por doenças gastrintestinais, queda nas faltas ao trabalho no país todo e até melhoras nos resultados escolares dos estudantes. “Resolver os problemas nos serviços de água e esgoto no Brasil não exige adotar ou criar tecnologia nova. É só usar o que já existe e administrar o sistema”, diz Rubem La Laina Porto, professor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e especialista em recursos hídricos.
Parte da solução para esses problemas tem de vir dos governos. O governo federal apresentou, em 2013, um novo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab). Tem a pretensão de ser um guia de longo prazo para o setor, um mapa para a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. Como guia, ele já nasce velho. O Plansab foi assentado sobre premissas otimistas demais. Dos três cenários apresentados, mesmo o mais pessimista supõe que o Brasil, nos 20 anos à frente, crescerá 3% ao ano e que o governo conseguirá investir de forma crescente em projetos de infraestrutura com boa qualidade, com execução competente, capaz de respeitar prazos.
No momento, nada disso corresponde à realidade. O país cresce menos que o necessário, o governo investe de forma irregular, e os projetos desandam por não haver, no setor público, administradores capazes o bastante. Mesmo assim, o Plansab serve como referência do que precisa ser feito. Ele prevê uma necessidade de investimentos de R$ 508 bilhões ao longo de 20 anos. Ao governo federal, caberiam investimentos a partir de R$ 13,5 bilhões por ano (a média de 2011 a 2013 foi de R$ 8,2 bilhões por ano). Mas planejar e investir em grandes obras não é a única forma de os governos federal, estaduais e municipais combaterem os problemas.
Governos têm papel fundamental para criar um ambiente de normas que incentivem o bom uso da água e a difusão dos serviços de esgoto. Isso inclui atrair empresas dispostas a investir no setor – num péssimo sinal, o Plansab coloca a maior participação do setor privado como um elemento de seu cenário mais pessimista. Inclui também fazer campanhas educativas contra o desperdício de água e definir tarifas que desincentivem os perdulários e premiem os poupadores. Cabe aos governos fiscalizar e punir rigorosamente poluidores, desmatadores, ocupantes irregulares de margens de mananciais e ladrões de água. Por fim, os governos deveriam cobrar padrões mais rigorosos na construção civil. A expansão imobiliária dos últimos anos foi uma imensa chance desperdiçada. Por todo o país, admitiu-se a construção de edifícios com tecnologia e concepções ultrapassadas, devoradores de água e energia, que em pouco ou nada contribuíram para levar, ao seu entorno, mais verde e mais terreno permeável.
O poder público deveria avaliar iniciativas como a do Green Building Council (GBC, ou Conselho de Construção Verde), uma entidade privada e multinacional que atesta a responsabilidade ambiental de novos empreendimentos. O GBC Brasil trabalha com uma certificação internacional já bem conhecida, a LEED, para todo tipo de edificação. E elabora uma outra, nacional, chamada Referencial Casa, apenas para projetos residenciais. Ela é testada em nove projetos e deverá ficar pronta em maio. O Referencial deverá incentivar construções com instalações (chuveiros, torneiras, descargas, medidores) que reduzam o desperdício de água. O LEED, em suas versões anteriores, dava prioridade à economia de energia e deixava a água em segundo plano. Tende a ficar mais equilibrado. “Na versão quatro, que passou a valer no ano passado, o tema água é o que mais ganhou importância”, diz Felipe Faria, diretor do GBC Brasil. Trata-se de uma iniciativa valiosa, mas ainda com pouco efeito sobre as cidades brasileiras. Há apenas 140 prédios certificados no país, todos projetados para gastar de 30% a 50% menos água que o usual em projetos do mesmo porte.
Soluções de um único tipo não resolverão problemas tão complexos. Outro caso exemplar no país é o Projeto Oásis, criado em 2006 pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. O projeto prevê pagamentos a proprietários de terras que preservem a vegetação em torno de nascentes. A ação se dá por meio de parcerias da Fundação com outras organizações, como prefeituras, ONGs e empresas. Os parceiros fiscalizam semestralmente a conservação da área. A Fundação remunera 228 proprietários, donos de mais de 2.000 hectares, que abrigam mais de 700 nascentes. Precisamos de cada uma delas.

Fonte: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/o-brasil-pede-baguab.html