quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O caminho de Shamatha - Equilibrando-me

Há uma linda representação do caminho de Shamatha, a meditação da quiescência ou calmo permanecer, amplamente utilizada em todas as tradições contemplativas.

Nela o elefante representa a mente, que antes do treinamento, está tomado por aflições, medos e expectativas, representados pela cor escura.

O praticante é quem vai treinar a mente. Com a atenção plena – representada pela corda – o praticante procura manter a mente focada no objeto de escolha, e com a vigilância – representada pelo gancho – o praticante monitora a qualidade do foco da atenção.

O macaco representa um dos desequilíbrios da atenção – a distração. Ele tenta arrastar o praticante para todos os objetos dos cinco sentidos – representados pelo tecido (tato), frutas (paladar), perfume (olfato), címbalos (audição) e espelho (visão).

O coelho representa aqui o outro tipo de desequilíbrio da atenção – o embotamento, que pode culminar na sonolência.
Ao longo do caminho, o entusiasmo e também o esforço necessários para a prática são representados pelo fogo.

Aos poucos, o praticante vai domando a mente, até que ao final, livre das distrações e da lassidão, completamente clara. No final do caminho, a concentração perfeita é atingida.
O praticante voando representa o bem-estar físico; e o elefante voando representa o bem-estar mental. Montando o elefante, o praticante passeia por todo o arco-íris, empunhando a espada flamejante do perfeito discernimento.


Fonte: - http://equilibrando.me/2014/07/30/o-caminho-de-shamatha/

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Herdar - Monja Coen Sensei



Podemos nos treinar a responder em vez de reagir. Podemos sair de uma cultura de violência para uma cultura de paz.

Recebemos uma herança de nossos ancestrais. Herança genética e herança ética (ou não ética). O que fazemos com o que herdamos é de nossa responsabilidade.

Não há nada fixo. Tudo pode mudar.

A vida é um processo incessante de transformação. Somos agentes e reagentes dessas mudanças. Buda dizia que temos vários níveis de consciência. O nível mais profundo, chamado consciência alaya, é como um grande depósito com inúmeras sementes que foram desenvolvidas desde o início da vida. As sementes — ou conexões neurais — precisam ser estimuladas para brotar. Nós podemos escolher quais queremos estimular em nós e também quais queremos estimular em outras pessoas.

Mas, se desconhecemos essas possibilidades, agimos no mundo apenas reagindo às provocações e temos reações, muitas vezes, inversas aos nossos propósitos e objetivos.

Os ensinamentos budistas se baseiam em sabedoria e compaixão. Sabedoria parece ser um estado raro, para poucos gurus ou seres especiais. Na verdade, o que Buda ensina é que todas as pessoas podem acessar um estado de sabedoria perfeita. Podemos trocar a palavra por compreensão clara da realidade. É tão fácil a mente enganar a própria mente. É nosso dever e direito, de nascença, despertar. Despertar para a mente clara e incessante, para a mente que compreende a si mesma.

Uma vez fui visitar Zilda Arns, em Curitiba. Ela me mostrou seus projetos de cuidados com recém-nascidos e me disse que “a violência começa no útero materno, até no processo de concepção”.

Quão verdadeiro. Os valores culturais já entram na formação e concepção de um ser humano. Podem ser de uma cultura de violência ou de paz. Semelhante aos ensinamentos de Buda: tudo que existe é o cossurgir interdependente e simultâneo. Não há um antes e um depois, há simultaneidade.

Por isso temos de ser cuidadosos. Cuidado é compaixão. É perceber a necessidade verdadeira de alguém e atender a essas necessidades.

Não apenas atender aos nossos apegos e aversões. Ir além do eu menor. Entretanto, é através dele, do nosso anseio por tranquilidade e alegria, plenitude e felicidade, que podemos adentrar o Eu Maior.

Podemos nos treinar a responder em vez de reagir. Para isso temos de conhecer a mente humana. O mais íntimo é nosso corpo e nossa mente. E mal os conhecemos. Medite.

Quando penetramos nesse nível de conhecimento, nos percebemos a vida da Terra e daí surge o sentimento do cuidado, da compaixão, da ternura. Por tudo que herdamos, que nos mantém vivos. Por tudo que deixaremos de herança.

O que fazemos, falamos e pensamos, repetitivamente, fica gravado de forma invisível no universo. A tendência é a repetição. O que estamos deixando marcado com atitudes, pensamentos, palavras?

Vivemos um momento mágico. Podemos sair de uma Cultura de Violência para uma de Paz.

Ainda há manifestantes com bombas, armas, gritos, ataques, destruições, abusos, raptos, apedrejamentos, enforcamentos, linchamentos.

Mas há muitos que já acordaram, que estão saindo desse passado violento, dessa cultura de torturas, para uma cultura de não violência ativa. Uma cultura de paz.

Seres livres não são manipulados.

Quero você e eu, quero todos nós, absolutamente livres, capazes de ver e compreender, para atuar com ternura e respeito na construção de uma cultura de compreensão e de cuidado. Acorde para a herança que recebeu e vai deixar na Terra.

Texto original em http://www.monjacoen.com.br

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Água, um novo "ouro azul" do século XXI - Por Paloma Esteban (Crisis Del XXI)

  


O forte aumento da demanda, as condições de seca e a má gestão dos recursos naturais são os principais fatores para se preocupar com o futuro da “commoditie” mais essencial de nosso planeta. Todas as indicações são de que a água vai se tornar o novo "ouro azul" nos próximos anos e vai deslocar o petróleo, como a mais valorizada matéria-prima.
Todos os analistas concordam que a água é um bem de investimento para o futuro. Goldman Sachs, em relatório destaca o grande potencial da indústria "ouro azul" e enfatiza que a água é um dos poucos recursos que não participou, diretamente, da inflação dos preços nos últimos vinte anos. No entanto, verificou-se sua participação em, virtualmente, todos os outros ativos em todo o mundo.
Assim, não houve incentivos para encorajar o investimento na indústria da água. Mas isso vai mudar.
Paul B. Farrell, um especialista sobre o comportamento das materiais primas e ex banqueiro de Morgan Stanley, indica que as receitas globais totais dessa indústria envolve 508 bilhões (últimos dados oficiais, de 2010), dos quais o setor agricultura é, sem dúvida, o maior consumidor do mundo, com um pico de 70%. É compreensível, portanto, que a falta de água agrave diretamente o déficit da oferta de alimentos.
Outros exemplos: Mercado de engarrafamento de água gera cerca de 58 bilhões de euros,   enquanto as usinas hidrelétricas; sistemas de distribuição e estações de tratamento chegam a gerar 226 bilhões e os sistemas de tratamento de esgoto, águas residuais movimentam aproximadamente 170 bilhões.
De acordo com os últimos dados da ONU e da OCDE é que 35% da população mundial não tem acesso a água potável. Outro dado de referência fornecido pela ONU é que 50% da população mundial viverá em regiões de escassez hídrica até 2030.
A seca, certamente, é um dos principais problemas. Tendo em conta que fora das nossas fronteiras, grandes rios como o Colorado e o Rio Grande só conseguem alcançar o oceano em anos mais úmidos, podemos imaginar que o resto dos rios são muito mais complicados. E, claro, esta questão vai levar, mais cedo ou mais tarde, alguma agitação política e social, com mais de vinte países hoje obter o seu total de água potável através de rios que correm para os países vizinhos. Imagine a dificuldade que as populações mundiais mais altos rios dependentes, como o Mekong, que atravessa a China, Birmânia, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã.
O crescimento da população e o aumento da demanda, juntamente com essas condições de seca são o maior desafio. O melhor exemplo: a China. Como Farrell explica, possui uma população de cerca de 1 bilhão e 344 milhões de pessoas e a próxima geração vai acrescentar mais 100 milhões. Farrell diz que o gigante asiático vai precisar para construir 500 novas cidades para acolher os seus novos moradores. Então, imagine quanta água vai ser preciso para abastecer, cerca de 500 novas cidades e suas milhares de casas. Os dados são enormes e este número é apenas a metade do esperado, para o crescimento da China até 2050.
Outro país de referência é os Estados Unidos, onde a demanda por água triplicou nos últimos 30 anos, apesar de a população aumentar apenas em 50%. Ou seja, a cada 20 anos, o consumo global de água está dobrando.
Então, é a indústria de água um bom negócio? Goldman Sachs argumenta que o "ouro azul" é muito desigualmente distribuído e é um produto necessário para todas as indústrias. Mas, como vimos, não tem valor mensurável. 
Como é possível estimar o valor / preço do barril de um produto que cobre mais de 70% da terra?
O problema da valorização da água está na própria sociedade assumir o "ouro azul" como produto. Em primeiro lugar, temos a tendência de excesso de consumo de água, porque não estamos pagando o preço certo, e, portanto, não damos o valor que este merece.
Em segundo lugar, esta subestimação também fez a gestão da água como "oportunidade de negócio" ser subestimada, por algumas das grandes empresas que tenham participado do negócio, até agora.
Original em http://crisisdelxxi.blogspot.com.br/2012/07/el-agua-nuevo-oro-azul-del-siglo-xxi.html


terça-feira, 29 de julho de 2014

Clima em 2013 refletiu um planeta em aquecimento


Relatório feito por 425 cientistas de 57 países registra aumentos na temperatura, no nível dos oceanos e na taxa de dióxido de carbono, bem como diminuição na extensão de gelo do Ártico
Muitas vezes, as alterações ambientais que ocorrem em nosso planeta não se dão de um dia para o outro e são sutis o suficiente para que algumas pessoas duvidem das mudanças climáticas em curso. Mas, a esmagadora maioria dos cientistas e estudos já reconhece a existência de um processo de aquecimento na Terra, e o mais novo relatório da Sociedade Meteorológica Americana e da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) não é diferente.
O State of the Climate 2013, compilado por 425 cientistas de 57 países, afirma que 2013 foi um dos dez anos mais quentes já registrados, e os dados mostram um aumento contínuo nas temperaturas atmosféricas e oceânicas e na elevação do nível do mar. Tudo isso tem um impacto na formação de gelo no Ártico e Antártida, e essas tendências, por sua vez, influem na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos.
O documento aponta, por exemplo, que, embora algumas partes da América do Norte e do Sul e da Europa central tenham apresentado temperaturas abaixo da média para o ano de 2013, quase todas as outras regiões do mundo registraram temperaturas na média ou acima da média neste ano. A Austrália, em particular, teve seu ano mais quente desde que os registros começaram, em 1910, a Argentina teve seu segundo ano mais quente, e a Nova Zelândia, seu terceiro. O leste europeu e oeste asiático também apresentaram temperaturas bem acima do normal.
O State of the Climate também mostra que, para todos os anos de 1976 até 2013, a temperatura média global ficou acima da média de longo prazo. As temperaturas terrestres aumentaram em cerca de 0,28 grau Celsius a cada dez anos.
Os oceanos também mostram aquecimento, e, embora algumas regiões tenham se apresentado mais frias do que o normal, principalmente na costa oeste da América do Sul por causa de fenômenos como o El Niño, as temperaturas da superfície do oceano subiram em média 0,11 graus Celsius por década durante os 37 anos compreendidos pelo trabalho. E não é apenas a temperatura da superfície oceânica que aumenta, pois o calor também chega às partes mais profundas. Os dados mostram um aumento de locais abaixo dos 700 metros de profundidade que apresentaram elevação da temperatura média. Além disso, o nível do mar continua a subir a uma média de 3,2 milímetros por ano nas últimas duas décadas.

Outras informações preocupantes referem-se à extensão de gelo nos polos. Em setembro de 2012, a extensão de gelo no Ártico atingiu seu menor valor já registrado, e em 2013, embora não tenha atingido o recorde de baixa, teve o sexto menor nível desde que iniciaram as medições, indicando uma tendência contínua de redução do gelo no Ártico.
Já na Antártica há uma maior formação de gelo marítimo, que alcançou uma extensão recorde, cerca de 5% mais do que a média de 1979 a 2013, e com um aumento de pouco mais de 1% por década.
Contudo, esse aumento no gelo antártico marítimo não compensa a perda do gelo ártico marítimo, já que este último apresentou-se 18% abaixo da média no último ano, e a taxa de perda está em 13,7% por década. Não menos preocupantes são as emissões de gases do efeito estufa, que também continuam a subir, tendo atingido valores históricos em 2013. A concentração de CO2 atmosférico aumentou 2,8 partes por milhão (ppm) em 2013, chegando à média global de 395,3 ppm no ano passado. No Observatório de Mauna Loa, no Havaí, a concentração diária de CO2 excedeu 400 ppm em nove de maio pela primeira vez desde o início dos registros, em 1958. Isso ocorreu depois que a marca de 400 ppm foi ultrapassada em alguns locais do Ártico, em 2012.
O número de ciclones tropicais durante 2013 ficou um pouco acima da média, com um total de 94 tempestades em comparação com a média de 89 entre 1981 e 2010. Mas apesar de ser comum relacionar esses eventos extremos com as mudanças climáticas, nem todos podem ser atribuídos diretamente aos efeitos do aquecimento global. Mesmo assim, a severidade desses eventos está mostrando de fato um crescimento, como diz o documento.
Por exemplo, embora a atividade de ciclones tenha ficado praticamente na média em 2013, o tufão Haiyan foi a mais forte dessas tempestades já registrada. “De ciclones devastadores a secas destruidoras, esse mapa ressalta os eventos que os cientistas climáticos de todo o mundo concluíram que devem ir para os livros como os mais significativos”, observa o documento. “Essas descobertas reforçam o que os cientistas observam há décadas: que nosso planeta está se tornando um local mais quente. Esse relatório fornece a informação de base que precisamos para desenvolver serviços para comunidades, empresas e nações para se prepararem e desenvolverem resiliência aos impactos das mudanças climáticas”, concluiu Kathryn Sullivan, administradora da NOAA.


Fonte -site www.akatu.org.br

sábado, 19 de julho de 2014

Crise da água em São Paulo: Quanto falta para o desastre? Por BRUNO CALIXTO E ALINE IMERCIO


O Brasil pede água
Imagine um futuro assim:
Em 2044, o Brasil celebra uma nova redução no número de mananciais poluídos. A grande seca que afetou o Sudeste entre 2013 e 2016 mudou para sempre as políticas públicas. A cada eleição, os candidatos debatem como cuidarão da água. Há anos, avançam por todo o país projetos de despoluição de rios, lagos e represas, assim como o reflorestamento de suas margens. Os depósitos subterrâneos estão protegidos. Quase toda a população conta com água limpa e serviço de saneamento. Não há mais paranoia a respeito dos perigos de exportar água. Como cuida bem de seus mananciais, o país tem água mais que suficiente para produzir a carne, os grãos e as frutas que vende ao mundo. Estudos internacionais confirmam: ao fazer isso, o Brasil beneficia o meio ambiente global e os próprios brasileiros. A exportação evita que países mais pobres em água esgotem seus poucos mananciais. Em paz e alimentadas, nações mais ameaçadas por secas fecham acordos e investem em tecnologia. Conseguem baratear cada vez mais a dessalinização da água do mar. Vários países africanos em rápido desenvolvimento se beneficiam desse avanço.
Agora, imagine outro futuro.
Em 2044, o Brasil lamenta um novo aumento no número de mananciais poluídos. Mais de dois terços dos rios, lagos e represas têm agora água ruim ou péssima, que exige tratamento caro e demorado antes de ser usada. Governo, empresas e cidadãos se ressentem dos erros de décadas. O país se tornou um pesadelo de favelas sem saneamento, reservatórios contaminados e água cara demais. O sistema de represas da Cantareira, em São Paulo, nunca se recuperou da grande seca de 2013 a 2016. Por causa das críticas da sociedade e da atuação de políticos e da Justiça, torna-se difícil destinar mais água à produção agrícola. E mais difícil ainda exportar essa água sob a forma de carne, grãos e frutas. Esse medo encontra eco na situação global. Na Ásia e na África, nações trocam ameaças e se engalfinham em guerras por causa de mananciais cada vez mais ressequidos.
Ambos os futuros, neste momento, são igualmente possíveis. O Brasil é uma potência da água. Não precisa sustentar nem 3% da população mundial, mas abriga 12% da água doce disponível no globo. Essa parcela aumenta para 18%, se contarmos a água que flui dos países vizinhos para o território nacional. Como um país desses pode comemorar o Dia da Água (22 de março) mergulhado numa crise energética e à beira do racionamento nas torneiras? A resposta está no mau uso do recurso.
Nossa crise energética mostra isso. As usinas hidrelétricas respondem pela maior parte da geração de energia no país. Para funcionar, elas dependem de nascentes, rios, lagos e represas bem protegidas por vegetação. Sem a cobertura vegetal a seu redor, sofrem mais com seca e a deposição de sedimentos no fundo, conhecida como assoreamento. O consumo de água e energia cresce continuamente no país, e há grande chance de o padrão climático mudar nas próximas décadas – provavelmente, com mais eventos extremos. É o que dirá o IPCC, painel da ONU sobre mudanças climáticas que lançará seu relatório final no dia 29. Por isso, os sistemas que garantem esses serviços públicos deveriam se tornar mais robustos, a fim de aguentar tanto fases de chuvas torrenciais quanto secas prolongadas.
Não é o que ocorre. O sistema hidrelétrico brasileiro já foi capaz de suportar mais de um ano sem chuva sobre os reservatórios. Essa tolerância está em menos de cinco meses hoje e tende a diminuir nos próximos anos. O problema se agravou com a onda de usinas construídas nos últimos anos, com projetos chamados tecnicamente de “a fio d’água”. Elas dispensam a construção de grandes barragens e reservatórios e tendem a provocar menor oposição social e ambiental. Mas são mais vulneráveis a secas e geram menos energia. Com a seca que atingiu nos últimos meses o Sul e o Sudeste, maiores geradores de energia, nossas reservas baixaram. Reduzir o preço da energia no Brasil é uma causa justa. Mas, por razões políticas, o governo federal não promoveu um esforço de economia de energia. Apenas subsidiou o barateamento da conta de luz e estimulou mais consumo. Desabastecido, o país é obrigado a ligar mais termelétricas a gás, óleo combustível e até carvão. Elas são mais caras e poluidoras.
A seca também expôs, com o chão rachado do fundo dos reservatórios, nossa incapacidade para abastecer as torneiras da população. O problema é mais agudo em São Paulo pela redução no volume de água no Sistema Cantareira, um complexo formado por seis represas, responsável pelo abastecimento de quase 9 milhões de pessoas em 11 cidades, incluindo a capital paulista. A área de captação dos reservatórios enfrenta a maior estiagem desde que começaram as medições, em 1930. Por razões políticas, o governo do Estado adiou as campanhas e medidas para economizar água.
Nas últimas semanas, o nível de água  no Sistema Cantareira caiu abaixo dos 15% do limite máximo. A esta altura do verão passado, o nível chegava a 59%, segundo a Sabesp, empresa que administra o sistema. “Nesse ritmo, o sistema corre um sério risco de secar. Se isso acontecer, a Cantareira poderá demorar até dez anos para encher novamente”, diz Alexandre Vilela, gerente técnico do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Cidades como São Paulo, Guarulhos, Valinhos, Campinas e Itu já preveem racionamento ou já fazem rodízio de abastecimento entre os bairros. O risco da seca levou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, a fazer um pedido incomum à presidente Dilma Rousseff. Alckmin pediu que águas do Rio Paraíba do Sul, que abastece regiões do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba, fossem despejadas no Sistema Cantareira. Trata-se de um pedido emergencial delicado, por envolver o compartilhamento de água entre sistemas em Estados diferentes, administrados por empresas diferentes. Até o fechamento desta edição, não havia um cenário claro sobre a posição dos governos federal e fluminense a respeito.
A seca em São Paulo veio unir-se a problemas crônicos do Brasil. Alguns são naturais, como a falta d’água em Estados com áreas semiáridas, como Ceará, Piauí, Paraíba, Alagoas, Bahia, Rio Grande do Norte e parte de Minas Gerais. Outros problemas não são tão naturais, como a contaminação dos rios usados para o abastecimento, resultado da falta de tratamento de esgoto e saneamento básico. Na região Norte, somente 13% dos domicílios têm acesso a rede coletora de esgoto.  A situação é crítica. No Pará, a falta de saneamento multiplica, talvez por dez, a incidência de doenças”, afirma Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, uma organização dedicada a promover o saneamento. Essa situação é mais crítica no Norte, mas o problema está disseminado pelo país, incluindo as capitais mais ricas. Num ranking de saneamento calculado pelo Banco Mundial, o Brasil fica num vergonhoso 112º lugar entre 200 nações.
Uma pesquisa da Agência Nacional de Águas (ANA) feita no ano passado encontrou água “ruim” ou “péssima” em 44% dos pontos de coleta em cidades no país. Tratá-la e torná-la adequada ao consumo fica mais caro e demorado, quando não inviável. Ela está contaminada principalmente com esgoto doméstico, consequência previsível das estatísticas: quatro em cada dez moradores das cidades brasileiras não contam com saneamento básico (fora das cidades, a situação é ainda pior – mais da metade dos brasileiros não tem saneamento).
O Instituto Trata Brasil calcula que, se toda a população recebesse serviço de esgoto, haveria efeitos mensuráveis não só de corte da poluição que chega aos mananciais, mas também de redução nas mortes por doenças gastrintestinais, queda nas faltas ao trabalho no país todo e até melhoras nos resultados escolares dos estudantes. “Resolver os problemas nos serviços de água e esgoto no Brasil não exige adotar ou criar tecnologia nova. É só usar o que já existe e administrar o sistema”, diz Rubem La Laina Porto, professor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e especialista em recursos hídricos.
Parte da solução para esses problemas tem de vir dos governos. O governo federal apresentou, em 2013, um novo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab). Tem a pretensão de ser um guia de longo prazo para o setor, um mapa para a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. Como guia, ele já nasce velho. O Plansab foi assentado sobre premissas otimistas demais. Dos três cenários apresentados, mesmo o mais pessimista supõe que o Brasil, nos 20 anos à frente, crescerá 3% ao ano e que o governo conseguirá investir de forma crescente em projetos de infraestrutura com boa qualidade, com execução competente, capaz de respeitar prazos.
No momento, nada disso corresponde à realidade. O país cresce menos que o necessário, o governo investe de forma irregular, e os projetos desandam por não haver, no setor público, administradores capazes o bastante. Mesmo assim, o Plansab serve como referência do que precisa ser feito. Ele prevê uma necessidade de investimentos de R$ 508 bilhões ao longo de 20 anos. Ao governo federal, caberiam investimentos a partir de R$ 13,5 bilhões por ano (a média de 2011 a 2013 foi de R$ 8,2 bilhões por ano). Mas planejar e investir em grandes obras não é a única forma de os governos federal, estaduais e municipais combaterem os problemas.
Governos têm papel fundamental para criar um ambiente de normas que incentivem o bom uso da água e a difusão dos serviços de esgoto. Isso inclui atrair empresas dispostas a investir no setor – num péssimo sinal, o Plansab coloca a maior participação do setor privado como um elemento de seu cenário mais pessimista. Inclui também fazer campanhas educativas contra o desperdício de água e definir tarifas que desincentivem os perdulários e premiem os poupadores. Cabe aos governos fiscalizar e punir rigorosamente poluidores, desmatadores, ocupantes irregulares de margens de mananciais e ladrões de água. Por fim, os governos deveriam cobrar padrões mais rigorosos na construção civil. A expansão imobiliária dos últimos anos foi uma imensa chance desperdiçada. Por todo o país, admitiu-se a construção de edifícios com tecnologia e concepções ultrapassadas, devoradores de água e energia, que em pouco ou nada contribuíram para levar, ao seu entorno, mais verde e mais terreno permeável.
O poder público deveria avaliar iniciativas como a do Green Building Council (GBC, ou Conselho de Construção Verde), uma entidade privada e multinacional que atesta a responsabilidade ambiental de novos empreendimentos. O GBC Brasil trabalha com uma certificação internacional já bem conhecida, a LEED, para todo tipo de edificação. E elabora uma outra, nacional, chamada Referencial Casa, apenas para projetos residenciais. Ela é testada em nove projetos e deverá ficar pronta em maio. O Referencial deverá incentivar construções com instalações (chuveiros, torneiras, descargas, medidores) que reduzam o desperdício de água. O LEED, em suas versões anteriores, dava prioridade à economia de energia e deixava a água em segundo plano. Tende a ficar mais equilibrado. “Na versão quatro, que passou a valer no ano passado, o tema água é o que mais ganhou importância”, diz Felipe Faria, diretor do GBC Brasil. Trata-se de uma iniciativa valiosa, mas ainda com pouco efeito sobre as cidades brasileiras. Há apenas 140 prédios certificados no país, todos projetados para gastar de 30% a 50% menos água que o usual em projetos do mesmo porte.
Soluções de um único tipo não resolverão problemas tão complexos. Outro caso exemplar no país é o Projeto Oásis, criado em 2006 pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. O projeto prevê pagamentos a proprietários de terras que preservem a vegetação em torno de nascentes. A ação se dá por meio de parcerias da Fundação com outras organizações, como prefeituras, ONGs e empresas. Os parceiros fiscalizam semestralmente a conservação da área. A Fundação remunera 228 proprietários, donos de mais de 2.000 hectares, que abrigam mais de 700 nascentes. Precisamos de cada uma delas.

Fonte: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/o-brasil-pede-baguab.html

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O JORNALISMO QUE SAPATEIA NA POÇA D’ÁGUA - Por Júlio Ottoboni ( Observatório da Imprensa)

Os cientistas bem que avisaram: as guerras futuras serão motivadas pela posse dos mananciais de água potável. O que era uma previsão feita nos anos 1990, no início dos alertas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), passou a se apresentar consistente no eixo mais rico e desenvolvido do país, que une São Paulo ao Rio de Janeiro. No meio dele, o vale do rio Paraíba do Sul, uma bacia estratégica para – literalmente – uma enxurrada de interesses, entre eles o abastecimento de 15 milhões de pessoas.


O que surgiu como um alarmismo para setores da imprensa – e acabou endossado por parte da própria comunidade científica, conhecidos como céticos – está acontecendo. O Sudeste brasileiro terá longos períodos de seca e grandes tempestades pontuais. Seu regime de chuvas esculhambou de vez. Embora, tacitamente, falar de clima seco no Brasil só seja permitido para os estados do Nordeste ou em eventuais El Niño e La Niña. O resto se encontra num horizonte ainda muito distante para ser visto e sentido. Coisa que só acontece nas vizinhanças.

O déficit hídrico de São Paulo já vem de tempos, a situação do Rio de Janeiro é ainda mais preocupante, pois depende diretamente das chuvas em solo paulista. No entanto, essa percepção é um tanto conturbada. Basta uma tempestade a inundar a capital paulista ou chuvas atrapalharem o dia de praia para o assunto sequer poder ser cogitado como pauta.

A lógica usada é a mais primária possível. Se chove em São Paulo, tanto o carioca como o paulista terá água na torneira. Mesmo que a ciência mostre que nem tudo que reluz é ouro, isso foi estabelecido pela perenidade do rio Paraíba do Sul. Embora a cada dia menos água exista em sua bacia em razão do desmatamento, expansão urbana e uma infinidade de outros fatores.

A situação seguiu assim até que o inevitável deu as caras. Um bloqueio atmosférico impediu as chuvas em terras paulistas durante o verão. E logo se mostrou toda a fragilidade da falta de políticas e investimentos em saneamento e na preservação da água. Sem dizer que a megalópole está assentada sobre 1,5 mil quilômetros de rios e córregos e ainda assassinou dois de seus principais rios e vários reservatórios. Todos mortos, aniquilados para o consumo – seja ele qual for.

A grande imprensa, com seus representantes estacionados exatamente onde a bomba prometia explodir, se fingiu de indignada e preferiu dar contornos ao caso dentro do contexto político sucessório. E mais uma vez mostra que só sabe ser estilingue, nunca vidraça. A corresponsabilidade da imprensa por falhar em informar e formar a opinião pública sempre é varrida para baixo do tapete. Novamente essa entidade cada vez mais bipolar escolheu, comodamente, qual a máscara que usaria para enfrentar o caso.


A hora da onça

As falhas e falta de políticas públicas para mitigar os problemas das mudanças climáticas passam ao largo das redações, como o firmamento pregado pelos cientistas do apocalipse. A onda de calor, que desde novembro passado se instalou sobre grande parte de São Paulo e impediu a formação de chuvas na Zona de Convergência do Atlântico Sul, agravou a demanda por água. E isso sequer foi incluído no contexto da estiagem. Sobrou muito de política e quase nada de ciência.

A linha que separa o cômico do dramático se rompeu totalmente quando um recentíssimo estudo da Universidade de Campinas (Unicamp), desenvolvido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), mostrou a irresponsabilidade das cidades brasileiras ao ignorarem as recomendações feitas pelo IPCC .

Quando o governo paulista avisou que para matar a sede de água e os vícios paulistanos – que continuam a lavar calçadas e carros com água própria para consumo – teria que ir buscar o líquido na bacia do rio Paraíba do Sul, de administração federal e responsável pelo abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro, o urro ecoou pelas encostas das serras da Mantiqueira e do Mar. Na hora de a onça beber água o que encontrou foi o lago seco.

O cenário se contaminou de vez. A panaceia foi culpar, de maneira linear e com pouco aprofundamento na questão, o que de pior o Brasil tem conseguido produzir nos últimos tempos: políticos. Até a deusa grega pediu licença para se retirar. A entidade mitológica não está exatamente acostumada a palcos circenses e futebolísticos superfaturados. E a conclusão é que o tal volume morto da represa do Jaguarí foi o atoleiro ideal encontrado para a imprensa, políticos e militantes se fartarem.

Passos no corredor

Enquanto fervilhavam acusações políticas, ameaças de retaliação e jogos de cena, que só faziam subir ainda mais a temperatura em suas desagradáveis ilhas de calor, organizações sociais procuraram dar a seriedade necessária ao assunto. Tanto em São Paulo como no Rio e em cidades do Vale do Paraíba paulista, surgiram diversos eventos entre empresários, cientistas e entidades ambientais focados em analisar e encontrar alternativas para solucionar, principalmente, as questões sobre o futuro da água na região.

Um dos mais produtivos encontros ocorreu no final do maio. A ação foi coordenada pela organização social Corredor Ecológico do Vale do Paraíba, que congrega entidades de relevância no meio empresarial, socioambiental e institutos de pesquisas. Entre os associados estão a empresa Fibria, o Instituto Ethos, SOS Mata Atlântica, Instituto Oikos, AMCE Negócios Sustentáveis, além de centros de pesquisa como o INPE e ITA e também o Comitê de Bacias.

A entidade produzirá uma agenda positiva com propostas a serem entregues aos candidatos que disputam os cargos no executivo federal e estadual, e também que pleiteiam o legislativo dessas esferas. Além disto, o Corredor Ecológico do Vale do Paraíba manterá atividades que visam a recuperar o ambiente natural da bacia do Paraíba do Sul. E com isso provar que há possibilidades além do sapateio na lama para caminhadas em terra firme e consistente.

Entretanto, para que isso ocorra, a imprensa precisa estar desperta, atenta para inúmeras outras possibilidades de se abordar um tema de alto grau de complexidade. Além de ser premente também corrigir sua miopia com as lentes da sabedoria e entender que se enxergar mais longe, de forma abrangente, conseguirá cumprir sua função social num momento de que a própria sociedade clama pela qualidade da informação.


* Júlio Ottoboni é jornalista científico.
* Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Mudança climática pode agravar crise hídrica nos centros urbanos - Por Karina Toledo

Eventos climáticos extremos, como estiagens prolongadas, fortes tempestades e ondas de calor ou frio intenso, devem se tornar mais frequentes à medida que a temperatura do planeta se eleva – o que poderá impactar a disponibilidade dos recursos hídricos disponíveis nos grandes centros urbanos brasileiros.

A avaliação foi feita pelo pesquisador Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG/USP), durante palestra apresentada no terceiro encontro do Ciclo de Conferências 2014 do programa BIOTA-FAPESP Educação, realizado no dia 24 de abril, em São Paulo.

De acordo com Rocha, a oferta de água no Brasil é – na média – muito maior do que a demanda. Com uma vazão de 5.660 quilômetros cúbicos de água por ano (km³/a), os rios brasileiros concentram cerca de 12% da disponibilidade hídrica mundial. A população consome em torno de 74 km³/a – menos de 2% da quantidade ofertada. Mas, como os recursos hídricos estão desigualmente distribuídos, há regiões com problemas de desabastecimento.

“Cerca de 80% dos recursos hídricos estão concentrados na Bacia Amazônica, enquanto há regiões com muito pouco, como o sertão nordestino, onde só é possível sobreviver graças aos grandes açudes”, afirmou.

Enquanto no Nordeste e no norte de Minas Gerais a falta de chuva é a principal causa da escassez hídrica, acrescentou o pesquisador, nos grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Goiânia o problema é o adensamento populacional.

“Há uma grande dificuldade de consolidar sistemas de abastecimento que acompanhem o crescimento populacional e a demanda dos setores industrial e agrícola. Todos trabalham no limite e, quando há um evento climático extremo como a estiagem que afetou São Paulo no último verão, o abastecimento entra em crise”, avaliou.

Embora em escala global seja estimado um aumento de 10% no volume de chuvas com o aquecimento global, resultante principalmente da maior evaporação do oceano, determinadas regiões poderão sofrer com estiagem.

“A redistribuição de calor no oceano pode formar piscinas quentes e frias – o que distorce o regime de chuvas no continente. Pode passar a chover mais em certas regiões e menos em outras”, afirmou Rocha.

De acordo com o pesquisador, o veranico (altas temperaturas e escassez de chuvas) que afetou São Paulo no início de 2014 foi causado pela formação de uma piscina de água quente na região tropical do Atlântico. 

“Por algum motivo, as frentes frias que costumam esfriar a água do oceano não chegaram. A piscina foi se aquecendo cada vez mais e bloqueando a entrada de novas frentes frias. 

A temperatura do oceano é um fator de grande impacto no regime de chuvas do continente”, disse.

Fonte: http://agencia.fapesp.br/19181